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A flor que Oswaldo Cruz plantou e que hoje enfrenta as enchentes que ameaçam apagá-la
Descubra como a hortênsia se tornou símbolo de Petrópolis, por que sua cor azul é resultado direto da química do solo local e o que está sendo feito para preservar essa tradição
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Existe uma flor que carrega o peso de representar uma cidade inteira. Em Petrópolis, na Serra Fluminense, essa flor é a hortênsia. As touceiras azuis que emolduram praças, avenidas e jardins particulares não chegaram ali por acaso. Elas fazem parte de um projeto paisagístico que atravessou mais de um século e que hoje enfrenta um adversário que seus idealizadores jamais poderiam prever: as mudanças climáticas.
O apelido de Cidade das Hortênsias se consolidou entre as décadas de 1960 e 1970, quando a flor já era reconhecida como um dos cartões-postais da cidade, ao lado dos casarões históricos e do clima ameno que sempre atraiu a elite carioca para a serra. Mas a história começa bem antes disso, e tem um protagonista que a maioria dos visitantes desconhece.
O plano de Oswaldo Cruz
Antes de se tornar o nome mais associado à saúde pública brasileira, Oswaldo Cruz assumiu, em 1916, a prefeitura de Petrópolis. Foi nesse cargo que ele colocou em prática um projeto de urbanização que ia muito além do saneamento básico pelo qual ficou famoso. O plantio de hortênsias na cidade, no entanto, começou ainda antes de sua gestão, por volta de 1910, já sob incentivo do próprio sanitarista, que via na espécie uma forma de embelezar e organizar a paisagem urbana.
A escolha não foi arbitrária. A Hydrangea macrophylla, espécie originária do Japão e da China e trazida à Europa no século 18, encontrou em Petrópolis um conjunto raro de condições favoráveis: altitude acima de 800 metros, temperaturas amenas mesmo no verão e umidade constante trazida pela proximidade da Mata Atlântica. É praticamente o oposto do calor e do sol pleno do litoral fluminense, ambiente em que a planta sofre visivelmente.
Um detalhe curioso da época reforça essa relação. As charretes, principal meio de transporte no início do século 20, eram puxadas por cavalos, e o esterco desses animais acabava enriquecendo organicamente o solo por onde passavam, favorecendo o desenvolvimento das mudas plantadas nas margens das ruas. Foi, sem intenção, um sistema de adubação natural que ajudou a consolidar as primeiras touceiras da cidade.
Por que o azul de Petrópolis é único
A explicação para a cor característica das hortênsias petropolitanas está na química do solo, e é mais precisa do que a maioria das pessoas imagina. A tonalidade da flor não é determinada pela genética da planta, mas pela disponibilidade de íons de alumínio no solo. Em solos ácidos, com pH abaixo de 5,5, como os predominantes na região serrana do Rio de Janeiro, o alumínio fica solúvel e é absorvido pela planta, resultando nos tons azulados e arroxeados que se tornaram marca registrada da cidade. Em solos alcalinos, esse alumínio se torna indisponível, e a mesma espécie produz flores rosadas ou avermelhadas.
Esse mecanismo é tão sensível que jardineiros no mundo todo usam sulfato de alumínio ou cal agrícola para manipular artificialmente a cor das hortênsias em vasos e canteiros. Em Petrópolis, no entanto, o azul é genuíno: resultado direto da geologia local, sem qualquer intervenção química.
Vale notar que Petrópolis não é a única cidade do mundo a construir identidade em torno dessa espécie. Nantucket, nos Estados Unidos, e a ilha de Mainau, na Alemanha, também são conhecidas internacionalmente por suas hortensiais, assim como a região de Hakone, no Japão, país de origem da planta. O que diferencia o caso brasileiro é a combinação entre clima tropical de altitude e legado histórico, uma coincidência geográfica difícil de replicar em outras regiões do país.
Uma tradição sob ameaça
A relação entre os moradores e a flor mudou nas últimas décadas. Hoje, a presença das hortênsias na paisagem urbana é bem menor do que em seu auge, e o sentimento predominante entre a população é de nostalgia por um cenário que ficou mais raro. Esse declínio tem explicações concretas, e o clima está no centro delas.
O aumento da frequência de eventos climáticos extremos na região serrana fluminense é o fator mais determinante. As chuvas intensas provocam deslizamentos e enchentes que arrastam a camada mais fértil do solo, exatamente aquela onde as raízes das hortênsias se desenvolvem. A tragédia de fevereiro de 2022, quando Petrópolis registrou o maior volume de chuva em 24 horas de sua história, é um exemplo extremo desse fenômeno: além das perdas humanas e materiais, os deslizamentos comprometeram áreas verdes inteiras, incluindo trechos históricos de plantio de hortênsias.
Some-se a isso a impermeabilização do solo, resultado da expansão urbana e do aumento de construções e pavimentação, que reduz a capacidade de absorção de água e altera o microclima que antes favorecia a espécie. O resultado é um ambiente urbano progressivamente menos hospitaleiro para uma planta que depende de condições muito específicas de umidade e drenagem.
O esforço para manter a tradição viva
Apesar do cenário desafiador, o poder público de Petrópolis mantém um programa ativo de replantio. Desde janeiro de 2025, mais de 15 mil mudas de hortênsias já foram plantadas em espaços públicos da cidade, incluindo pontos historicamente associados à flor, como a Praça Dom Pedro, a Praça da Liberdade, o Parque Natural Municipal Padre Quinha, a Avenida Ipiranga, as laterais do Relógio das Flores e a Avenida Koeler. As hortênsias também seguem presentes em jardins particulares, mantendo viva a relação afetiva entre moradores e a espécie.
Projetos paisagísticos privados reforçam esse movimento. Em bairros como Itaipava e em pontos turísticos como o pórtico do Quitandinha, canteiros foram redesenhados especificamente com hortênsias, numa tentativa deliberada de devolver à cidade uma de suas marcas visuais mais reconhecíveis. A escolha da espécie nesses projetos não é estética por acaso: é uma decisão de identidade, pensada para reforçar o vínculo entre paisagem e memória coletiva.
Mais que uma flor, um símbolo turístico
A hortênsia deixou de ser apenas um elemento decorativo para se tornar parte do roteiro turístico oficial da cidade. Petrópolis carrega dois títulos que se complementam: Cidade Imperial, pelo passado como refúgio de Dom Pedro II e da família real, e Cidade das Hortênsias, pela identidade construída ao longo do século 20. Juntos, esses dois símbolos formam a narrativa que atrai visitantes em busca tanto da história monárquica quanto da paisagem florida que se tornou marca da região serrana.
Para os moradores, cada touceira azul carrega um significado que vai além do paisagismo. É um elo com uma tradição que atravessou mais de cem anos, sobreviveu a mudanças urbanas profundas e agora enfrenta o desafio climático mais sério de sua história. Preservar essa flor em Petrópolis não é apenas uma questão de estética urbana. É manter viva uma parte da identidade de uma cidade que se construiu, literalmente, com as próprias mãos e com a ajuda da natureza ao seu redor.
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Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.
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