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O que as aves sabem sobre café que a ciência demorou para entender

Novo estudo nos Andes colombianos documenta como florestas conservadas e grupos de aves específicos são peças-chave para a sustentabilidade das plantações cafeeiras

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Derick Machado
12 de junho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência
O que as aves sabem sobre café que a ciência demorou para entender

Existe uma cadeia que começa na copa de uma árvore alta, passa pelo voo de um pássaro que ninguém vê e termina no grão de café que chega à xícara. Durante muito tempo, essa conexão foi subestimada. Um estudo publicado em maio de 2025 no periódico Journal of Applied Ecology veio documentar, com dados e mapas, o que ela representa na prática para as plantações cafeeiras dos Andes colombianos, e os resultados foram além do que os próprios pesquisadores esperavam.

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A pesquisa examinou como a composição da paisagem ao redor dos cafezais, especialmente a presença de cobertura florestal, influencia tanto a biodiversidade de aves quanto o comportamento das plantações. O achado central é claro: a floresta conservada num raio de apenas 2 km já produz efeitos positivos mensuráveis sobre o ecossistema local, favorecendo o desenvolvimento de diferentes espécies animais e, por consequência, a sustentabilidade do próprio cultivo.

A floresta como infraestrutura invisível

Os Andes colombianos são reconhecidos mundialmente pela qualidade do café que produzem. O terreno montanhoso, o clima tropical de altitude e as variações de temperatura entre o dia e a noite criam condições únicas para um grão suave, com notas de frutas cítricas e caramelo que definem o perfil sensorial apreciado por torrefadores e baristas ao redor do mundo. O que o estudo acrescentou a essa narrativa é o papel da floresta como parte da infraestrutura produtiva, mesmo quando ela não está dentro da plantação.

A lógica é mais simples do que parece: mesmo em áreas agrícolas altamente tecnificadas, onde humanos e máquinas executam grande parte das funções produtivas, certos processos ecológicos fundamentais dependem de animais. A polinização e a dispersão de sementes continuam sendo realizadas por abelhas, beija-flores e outras aves de maneira mais eficiente do que qualquer método artificial disponível. Para que esses animais estejam presentes, no entanto, é preciso que o entorno ofereça habitat adequado.

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Ivette Perfecto, pesquisadora da Universidade de Michigan e referência global em estudos sobre biodiversidade em paisagens cafeeiras, documentou em seus trabalhos que os cafezais cultivados à sombra funcionam como corredores biológicos que conectam fragmentos florestais, permitindo que espécies de aves mantenham populações viáveis mesmo em paisagens agrícolas intensamente modificadas. Esse princípio está na base do que o estudo colombiano agora comprova com dados de campo.

Como cada grupo de aves responde ao ambiente

Uma das contribuições mais práticas da pesquisa é a categorização das respostas de diferentes grupos de aves a diferentes tipos de cultivo e cobertura vegetal. Os resultados revelam que a relação entre aves e cafezais é estratificada, e que cada grupo responde de forma distinta ao ambiente que encontra.

As espécies dependentes de floresta, aquelas que precisam de habitat mais íntegro e estruturado para se estabelecer, mostraram exigir ao menos 32% de cobertura florestal na paisagem circundante para atingir os níveis médios de ocupação populacional típicos de sua espécie. Abaixo desse limiar, as populações encolhem de forma consistente. Já as espécies generalistas, com maior capacidade de adaptação a ambientes modificados, mantiveram densidades populacionais razoáveis tanto em fragmentos florestais quanto em cafezais cultivados à sombra, desde que esses cafezais apresentassem ao menos 10 espécies arbóreas e 45% de cobertura vegetal.

O tipo de cultivo também importa. Cafezais mais sombreados, densos e diversificados favoreceram espécies frugívoras, insetívoras e nectarívoras, grupos que desempenham funções ecológicas diretamente ligadas à saúde das plantações. Por outro lado, a monocultura intensiva a pleno sol, sem sombra e com baixa diversidade vegetal, favoreceu espécies granívoras e onívoras, que têm participação ecológica mais limitada nos processos benéficos ao cultivo.

John Vandermeer, também da Universidade de Michigan e coautor de pesquisas extensas sobre sistemas agroflorestais com café, argumentou em estudos anteriores que a simplificação da estrutura vegetal nas plantações cafeeiras não apenas reduz a biodiversidade, mas compromete os serviços ecossistêmicos que essa biodiversidade presta, criando uma dependência crescente de insumos externos para suprir funções que a natureza fornecia gratuitamente.

A sombra como elemento de design ecológico

Um aspecto que o estudo ilumina com particular clareza é o papel da sombra gerada pelas árvores de grande porte nos cafezais. As copas densas de espécies florestais cultivadas junto ao café criam um microclima que regula a temperatura, retém umidade e protege tanto as plantas quanto os animais da exposição direta ao sol. Esse sombreamento não é apenas conforto térmico: é o que torna o ambiente habitável para espécies que, de outra forma, não se instalariam na paisagem.

A sombra também influencia a qualidade do próprio grão. O desenvolvimento mais lento da cereja do café em condições de sombreamento concentra os açúcares e compostos aromáticos responsáveis pelo perfil sensorial complexo que caracteriza os cafés de altitude. Floresta e café, nesse sentido, não estão em competição pelo mesmo território. Eles constroem juntos um sistema mais resiliente, mais biodiverso e mais produtivo no longo prazo.

Sazonalidade e o que muda no período reprodutivo

A pesquisa também registrou variações sazonais relevantes. Durante o pico do período reprodutivo das aves na região, que ocorre entre dezembro e janeiro, o uso do habitat passa por alterações significativas. As espécies redistribuem sua presença conforme as exigências da reprodução, o que implica que a disponibilidade de habitat adequado precisa ser constante ao longo do ano, e não apenas nas estações de maior produção agrícola.

Essa sazonalidade reforça a necessidade de pensar a conservação da paisagem cafeeira como um processo contínuo. A presença de árvores florestais e a manutenção de fragmentos de vegetação nativa nos arredores dos cafezais precisam ser estáveis para que os grupos de aves cumpram seu papel ecológico de maneira consistente durante todo o ciclo produtivo.

O que o estudo recomenda para os Andes colombianos e além

As indicações dos pesquisadores são diretas: conservar a cobertura vegetal e manejar o café de forma sustentável são as duas ações com maior potencial de impacto positivo sobre a biodiversidade e a produtividade das paisagens cafeeiras. No contexto dos Andes colombianos, o aumento das árvores florestais dentro e ao redor dos cafezais melhoraria a adequação do habitat para praticamente todos os grupos de aves estudados.

O alcance dessas conclusões, no entanto, ultrapassa a Colômbia. O mecanismo identificado, que envolve a relação entre cobertura florestal, estrutura vegetal do habitat local e composição das comunidades de aves, é aplicável a outras regiões tropicais onde o café é cultivado em paisagens fragmentadas. Brasil, Etiópia, Indonésia e Vietnam, todos grandes produtores com pressão crescente sobre a vegetação nativa ao redor das plantações, encontram nesse estudo uma base científica sólida para repensar o modelo de uso da terra.

Fonte: Revista Galileu
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