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Experimento brasileiro quer levar plantas amazônicas e minicérebros à Estação Espacial Internacional

A missão busca acelerar estudos sobre envelhecimento neural e investigar moléculas com potencial terapêutico para doenças degenerativas, como o Alzheimer.

Revisão: Derick Machado
19 de maio de 2026
in Noticias
Experimento brasileiro quer levar plantas amazônicas e minicérebros à Estação Espacial Internacional

Ao imaginar novas terapias para doenças neurodegenerativas, poucos pensariam que a combinação entre tecnologia espacial, povos originários e a biodiversidade amazônica poderia conduzir a caminhos promissores. Entretanto, essa é exatamente a trajetória que vem guiando as pesquisas do neurocientista brasileiro Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego. Desde 2019, ele utiliza os chamados organoides cerebrais — estruturas apelidadas de “minicérebros” — para compreender de que maneira o envelhecimento neural ocorre e como ele pode ser modulado. Aliás, foi no ambiente extremo da Estação Espacial Internacional que seu grupo descobriu que a microgravidade acelera processos de senescência em tecidos humanos, abrindo novas possibilidades de investigação para doenças como o Alzheimer.

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A experiência revelou que, em apenas 30 dias, os organoides retornavam à Terra com sinais intensificados de envelhecimento celular. Entre as alterações, surgia uma resposta autoimune desencadeada por trechos de DNA retroviral presentes no genoma humano — elementos remanescentes da evolução que, segundo observes de Muotri, podem atuar no gatilho de condições neurodegenerativas. A partir disso, surgiram hipóteses terapêuticas, como o uso de antirretrovirais para atenuar danos neurológicos.

Da ciência de laboratório ao conhecimento ancestral

Entretanto, para Muotri, esse avanço era apenas o início. Como diretor do Sanford Integrated Space Stem Cell Orbital Research Center (ISSCOR), ele buscou ampliar o escopo dos experimentos, aproximando a biotecnologia espacial de saberes tradicionais da floresta. Assim nasceu a colaboração com o professor Spartaco Astolfi Filho, da Universidade Federal do Amazonas, cuja experiência com povos originários — em especial com os Huni Kuin — permite mapear plantas com potenciais efeitos neuroativos.

“Buscamos isolar moléculas de plantas que possam ter princípios neuroativos”, explicou Muotri em entrevista à Agência FAPESP. Segundo ele, o objetivo é realizar uma curadoria criteriosa de espécies cujas propriedades possam atuar como neuroprotetoras ou até mesmo como candidatas a novos tratamentos para o Alzheimer. Assim, extratos vegetais seriam testados diretamente em organoides derivados de células-tronco de pacientes com a doença.

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Além disso, a microgravidade se torna uma aliada decisiva no processo. Os minicérebros enviados ao espaço sofrem o chamado SINS — Senescência Neural Induzida pelo Espaço, uma aceleração do envelhecimento que permite aos cientistas observar em semanas aquilo que levaria anos na Terra. “Conseguimos envelhecer esse tecido neural em alguns anos, algo que seria praticamente impossível de fazer aqui em um período curto de tempo”, afirma Muotri.

A missão espacial e o projeto de cientistas-astronautas

Com resultados promissores, Muotri chegou a se candidatar para ir pessoalmente ao espaço. A proposta incluía a formação de uma equipe de cientistas-astronautas e um ciclo contínuo de experimentos em órbita. “Eu seria o primeiro, passaria dez dias, e outro cientista me substituiria em seguida”, descreveu.

Porém, as mudanças na administração norte-americana interromperam o avanço. O corte de recursos para agências de fomento, inclusive para a Nasa, suspendeu o início da missão. “A gente estava com tudo pronto para começar esses experimentos quando mudou a administração do governo americano”, lamenta. Entretanto, ele ressalta que o obstáculo é temporário, já que a nomeação de um novo comando para a agência espacial reacendeu expectativas.

Independência da Nasa e novos caminhos de financiamento

Ainda que os cortes tenham impactado o cronograma, Muotri acredita que a continuidade é possível graças ao interesse de empresas privadas. SpaceX, Axiom Space e Vast demonstraram disposição para colaborar, o que amplia a perspectiva de uma missão independente. Para ele, o investimento em pesquisas desse porte é justificável, especialmente porque um tratamento eficaz para o Alzheimer reduziria custos gigantescos dos sistemas de saúde.

Além disso, o modelo colabora diretamente com a conservação da Amazônia: caso novas moléculas se transformem em fármacos, a propriedade intelectual será compartilhada, garantindo retorno financeiro às comunidades que preservam esse conhecimento ancestral.

Descobertas que já estão transformando a prática clínica

Os resultados anteriores do grupo, derivados de experimentos em microgravidade, já reverberam na medicina. Um exemplo é a síndrome de Rett, em que Muotri identificou uma nova via molecular que pode ser bloqueada por antirretrovirais — medicamentos amplamente disponíveis. “É uma ideia um pouco diferente, usar um antirretroviral para uma doença neurológica, mas que faz todo o sentido”, afirma. Um ensaio clínico brasileiro já está em andamento para avaliar essa abordagem.

Outro avanço envolve a síndrome de Pitt-Hopkins. Em 2022, o grupo descobriu um vetor genético com potencial para reverter sintomas da condição. Agora, em parceria com Fábio Papes, da Unicamp, a equipe recebeu aprovação da FDA para iniciar testes clínicos. A fase inicial, que avaliará toxicidade, deve começar em breve, e o recrutamento de pacientes está previsto para 2026.

Entre a Terra e o espaço, uma fronteira científica que se expande

Enquanto a missão espacial aguarda definições, o projeto segue vivo. A combinação entre minicérebros envelhecidos em órbita, extratos vegetais amazônicos e tecnologia de ponta coloca a ciência brasileira em uma posição singular. Entre desafios políticos, avanços biotecnológicos e a riqueza da floresta, as pesquisas de Alysson Muotri revelam uma narrativa que ultrapassa a medicina tradicional e amplia horizontes para a biologia humana — na Terra e muito além dela.

Via: André Julião | Agência FAPESP
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