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O milho que alimentou civilizações por 9 mil anos está desaparecendo mais rápido do que a ciência consegue catalogar

A erosão genética de variedades crioulas avança a cerca de 100 espécies por ano, apagando milhares de anos de adaptação local, resistência a pragas e diversidade nutricional que nenhuma tecnologia moderna consegue recriar

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Derick Machado
25 de junho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência
O milho que alimentou civilizações por 9 mil anos está desaparecendo mais rápido do que a ciência consegue catalogar

Existe uma forma de extinção que não aparece nos noticiários sobre animais ameaçados, não gera campanhas de preservação e raramente ocupa espaço nos debates ambientais. Ela acontece em silêncio, dentro de sacos de sementes guardados em celeiros que ninguém mais abre, em variedades que deixam de ser plantadas por uma geração e desaparecem para sempre. A erosão genética do milho crioulo é esse tipo de perda: invisível, irreversível e acelerada.

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Estima-se que o mundo perde aproximadamente 100 variedades crioulas de milho por ano. O número parece abstrato até que se compreende o que ele representa: cada variedade perdida é o resultado de séculos ou milênios de adaptação a um solo específico, a um regime de chuvas particular, a uma pressão de praga local, ao gosto e à cultura de uma comunidade que a cultivou por gerações. Nenhum laboratório do planeta consegue recriar essa informação genética a partir do zero.

Nove mil anos de seleção que a modernidade desfez em décadas

O milho é uma das plantas mais domesticadas da história da agricultura. Seu ancestral selvagem, o teosinto mexicano, foi transformado pelas civilizações mesoamericanas num cereal completamente diferente ao longo de pelo menos 9 mil anos de seleção contínua. Esse processo se expandiu por toda a América, gerando uma diversidade genética extraordinária: só no México existem 59 raças oficialmente catalogadas de milho. No Brasil, especialmente nas regiões Sul e Nordeste, essa diversidade se multiplicou em centenas de variedades adaptadas às condições locais, cultivadas por comunidades indígenas, quilombolas e agricultores familiares que faziam da seleção de sementes uma prática anual e cumulativa.

A Revolução Verde dos anos 1960 e 1970 interrompeu esse processo de forma abrupta. A introdução de híbridos de alto rendimento, desenvolvidos para responder a insumos como fertilizantes sintéticos e agrotóxicos, substituiu rapidamente as variedades locais nas lavouras. O argumento era produtividade — e ele funcionou, em termos de volume. O que não se contabilizou, naquele momento, foi o custo genético dessa troca. Os híbridos comerciais não produzem sementes férteis com as mesmas características da geração anterior, o que obriga o produtor a comprar novas sementes a cada safra e elimina, na prática, a possibilidade de seleção local ao longo do tempo.

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O que se perde quando uma variedade some

A diversidade genética de uma espécie cultivada funciona como um arquivo vivo de soluções biológicas. Variedades crioulas carregam genes de resistência a fungos que nunca foram estudados, mecanismos de tolerância à seca desenvolvidos em regiões semiáridas, perfis nutricionais distintos do milho amarelo convencional e características agronômicas específicas para solos com baixa disponibilidade de nutrientes. Toda essa informação é funcional e está em uso constante nas lavouras onde essas sementes ainda são plantadas. Quando a variedade some, o arquivo fecha.

O milho que alimentou civilizações por 9 mil anos está desaparecendo mais rápido do que a ciência consegue catalogar

Um dado que amplia essa perspectiva: a FAO estima que cerca de 75% da diversidade genética das plantas cultivadas foi perdida entre 1900 e 2000. Essa estatística inclui não apenas o milho, mas dezenas de culturas que passaram pelo mesmo processo de substituição por variedades comerciais uniformizadas. No caso do milho, a concentração é ainda mais preocupante porque a cadeia produtiva global está estruturada em torno de um número muito pequeno de linhagens geneticamente similares, o que cria vulnerabilidades sistêmicas.

A analogia mais precisa é a da Praga da Batata Irlandesa, no século XIX. A Irlanda cultivava basicamente uma única variedade de batata. Quando o fungo Phytophthora infestans se adaptou a ela, não havia alternativa genética disponível no campo. O resultado foi a morte de mais de 1 milhão de pessoas e a emigração forçada de outros tantos. A erosão genética do milho crioulo está criando, em câmera lenta, as mesmas condições de vulnerabilidade.

Bancos de sementes guardam, mas não substituem o que o campo faz

Uma resposta comum a esse problema é apontar para os bancos de germoplasma como solução. A lógica parece razoável: se as sementes estão armazenadas, a diversidade genética está preservada. O Svalbard Global Seed Vault, na Noruega, armazena mais de 1,3 milhão de amostras de sementes de todo o mundo em condições de congelamento profundo, e o Brasil mantém o seu próprio banco de germoplasma gerenciado pela Embrapa, com coleções de milho entre as mais importantes da América Latina.

O problema é que conservação ex situ, como os especialistas chamam o armazenamento fora do ambiente natural, preserva o genoma mas não preserva a adaptação. Uma semente congelada em Svalbard há 30 anos carrega o genoma de uma variedade que existia há 30 anos, num ambiente que existia há 30 anos. Ela não evoluiu. Não respondeu a novas pragas. Não se adaptou a temperaturas mais altas nem a padrões de chuva alterados pelas mudanças climáticas. O processo de adaptação local, que é o que torna uma variedade crioula valiosa, só acontece quando a semente é plantada, colhida, selecionada e replantada por quem conhece aquele solo e aquele clima.

Isso torna a conservação in situ — dentro das lavouras, nas mãos dos agricultores — insubstituível. E é exatamente essa conservação que está sendo perdida à medida que as variedades crioulas somem das propriedades.

O papel dos guardiões e o que a ciência aprendeu com eles

No Brasil, redes de guardiões de sementes crioulas existem há décadas, especialmente nos estados do Sul. Agricultores e agricultoras familiares que mantêm coleções de dezenas ou centenas de variedades locais, organizados em feiras de sementes e redes de troca, representam hoje um dos sistemas mais eficazes de conservação genética ativa que existem. Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná concentram algumas das iniciativas mais reconhecidas, com variedades de milho que simplesmente não existem em nenhum banco de germoplasma do mundo.

O que a pesquisa científica aprendeu ao estudar essas comunidades é revelador. As variedades mantidas por guardiões apresentam frequentemente maior variabilidade genética do que amostras coletadas décadas atrás e armazenadas em bancos, porque continuaram evoluindo em campo. Essa evolução contínua é o que o congelamento não consegue replicar. A conservação dinâmica, feita por quem planta, é geneticamente superior à estática.

O paradoxo é que esse sistema, construído ao longo de gerações, é também o mais frágil. Ele depende de que uma comunidade continue plantando, de que o conhecimento associado ao manejo de cada variedade seja transmitido, de que a terra permaneça disponível e de que o modelo econômico vigente não torne inviável continuar cultivando variedades de menor produtividade comercial em relação aos híbridos.

Mudança climática como pressão adicional sobre o que resta

Há uma ironia cruel na relação entre crise climática e erosão genética. As mudanças climáticas estão tornando os sistemas agrícolas progressivamente mais vulneráveis a eventos extremos, secas prolongadas e novas doenças de plantas. A resposta a essa vulnerabilidade exige exatamente o que a erosão genética está destruindo: diversidade, plasticidade, variedades adaptadas a condições adversas.

Variedades crioulas de milho cultivadas em regiões semiáridas do Nordeste brasileiro foram selecionadas por comunidades que lidavam com irregularidade de chuvas há séculos. Algumas dessas variedades completam o ciclo produtivo com volumes de precipitação muito abaixo do que os híbridos comerciais necessitam. Essa característica tem valor imenso num cenário de intensificação das secas. E boa parte dessas variedades já desapareceu.

Pesquisadores que trabalham com adaptação climática na agricultura identificam nas variedades crioulas uma reserva estratégica de genes de tolerância ao estresse hídrico e térmico. A ironia é que essa reserva está sendo consumida justamente no momento em que a necessidade dela se torna mais urgente.

O que ainda é possível fazer

A perda de 100 variedades por ano não é uma fatalidade biológica. É o resultado de escolhas econômicas, políticas e culturais que podem, em parte, ser revertidas. Políticas públicas de valorização da agrobiodiversidade, apoio financeiro a redes de guardiões, reconhecimento legal das variedades crioulas no sistema de proteção de cultivares e integração da conservação in situ nas estratégias nacionais de segurança genética são caminhos que pesquisadores e organizações da sociedade civil defendem há décadas.

Em escala individual, o interesse crescente por sementes crioulas em hortas urbanas e jardins representa um vetor inesperado de conservação. Quando uma pessoa cultiva um milho crioulo num canteiro, está participando de um sistema vivo de preservação genética, ainda que em escala mínima. A conexão entre quem jardina nas cidades e quem guarda sementes no campo raramente é reconhecida nesses termos, mas ela existe.

O que está claro é que o tempo trabalha contra essa diversidade. Cada safra que passa sem que uma variedade seja plantada aumenta a probabilidade de que a semente perca viabilidade, de que o agricultor que a guardava envelheça sem transferir o conhecimento, de que o vínculo entre a planta e o território que a moldou seja cortado definitivamente. A erosão genética não tem dramaturgia. Acontece sem ruído, e o que se perde com ela é exatamente o tipo de riqueza que só se reconhece depois de perdida.

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  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em jardinagem, botânica urbana e paisagismo residencial. Acompanha de perto as principais tendências de design biofílico, técnicas de cultivo sustentável e inovações no manejo de plantas para ambientes internos e externos, sempre com base em referências de institutos botânicos, universidades e especialistas do setor.

    E-mail: [email protected]

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