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Christiane Taubira: “A Amazônia é plural e precisa ser ouvida”

Pensadora franco-guianense propõe repensar o multilateralismo a partir das vozes e realidades amazônicas, em meio aos debates que antecedem a COP30.

Revisão: Derick Machado
19 de maio de 2026
in Noticias
Foto: Agência Gov | Secom/PR

Foto: Agência Gov | Secom/PR

Resumo
  • Christiane Taubira defende que a Amazônia seja vista como um espaço vivo, habitado por culturas diversas, e não apenas como paisagem a ser protegida.
  • Durante conferência no Brasil, ela criticou a forma como instituições multilaterais ignoram as populações amazônicas em decisões globais.
  • A ex-ministra relembrou sua luta contra a criação de um parque francês que desconsiderava os modos de vida locais na Guiana.
  • Seu novo livro, lançado pela USP, reúne intelectuais e propõe um olhar plural sobre a floresta, com foco na justiça social.
  • Taubira afirma que poesia, língua e escuta são ferramentas fundamentais para reconstruir o diálogo político e o multilateralismo.

À medida que o mundo se prepara para a COP30 em Belém, a voz de Christiane Taubira — economista, ex-ministra da Justiça da França e uma das figuras intelectuais mais respeitadas do espaço francófono — volta a ecoar com força. Filha da Guiana Francesa, Taubira carrega uma visão que une a experiência política e a sensibilidade poética para defender uma ideia simples, mas revolucionária: a Amazônia não é apenas um território, mas uma constelação de povos, culturas e histórias que precisam ser ouvidas.

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Durante a 8ª Conferência FAPESP, com o tema “A Amazônia Contemporânea e os Desafios da Justiça Social”, a ex-ministra afirmou que a floresta deve ser pensada como uma entidade viva, onde coexistem tradições ancestrais, cidades modernas e modos de vida que resistem à homogeneização global. “A Amazônia é plural. Ela não é uma paisagem vazia, mas um espaço de vida, cultura e história”, afirmou.

A floresta como centro do mundo

A proposta de Taubira contrasta com a visão dominante nas instituições multilaterais. Segundo ela, a ONU e seus organismos ainda tratam a Amazônia como um pulmão distante, um objeto a ser protegido de fora para dentro, sem compreender as populações que nela vivem. “As Nações Unidas pensam em proteger a Amazônia como se fosse um lugar deserto, ignorando que há vidas e modos de existência enraizados ali”, observou.

Essa crítica parte de uma vivência pessoal. Em 1992, quando ainda atuava como militante em Caiena, participou da Rio 92 e se opôs à proposta do governo francês de criar um parque nacional que abrangeria 40% da Guiana Francesa. Para ela, a ideia ignorava que dentro daquele território viviam comunidades inteiras, com formas próprias de convivência com a natureza. “Lutei para que não fosse chamado de parque nacional, porque, na França, esses espaços são desabitados. Aqui, seria uma negação dos modos de vida locais”, relembra.

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Anos depois, o projeto foi reformulado e passou a se chamar Parque Amazônico da Guiana, conciliando preservação e presença humana — uma vitória simbólica para quem sempre defendeu a coexistência entre floresta e cultura.

Uma trajetória entre a política e a poesia

Com uma carreira marcada por 19 anos no Parlamento francês e cinco no europeu, Christiane Taubira consolidou-se como uma das vozes mais progressistas da política francesa. Foi responsável por leis que reconheceram a escravidão como crime contra a humanidade, proibiram minas terrestres e responsabilizaram o Estado francês pelos testes nucleares no Pacífico.

Entre 2012 e 2016, como ministra da Justiça no governo de François Hollande, conduziu reformas emblemáticas — entre elas, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e o fortalecimento das políticas de combate à corrupção.

Mas é sua conexão com a Amazônia que a move novamente ao centro do debate global. Em 2024, Taubira assumiu a 12ª Cátedra José Bonifácio da USP, onde coordena o projeto “Sociedades amazônicas: realidades plurais, um destino comum?”. Dessa pesquisa nasceu o livro “Amazônias: Espaço Vivo, Social, Político”, obra que reúne reflexões de intelectuais como Manuela Carneiro da Cunha, Pedro Dallari, Laurent Fabius, Sophie Bessis e Almires Martins Machado.

O livro será apresentado na COP30, em Belém, como um chamado para que as vozes amazônicas — indígenas, urbanas, ribeirinhas — sejam ouvidas nas decisões que moldam o futuro climático do planeta.

O multilateralismo em crise

Para Taubira, as estruturas internacionais que regem o mundo estão presas a um modelo ultrapassado, incapaz de refletir a pluralidade do século XXI. “A governança multilateral que temos é um reflexo do pós-guerra, criada por cerca de 60 países em um contexto de impérios. Hoje, com 195 nações, essa arquitetura tornou-se impotente”, afirmou.

Essa crítica, porém, não é um gesto de ruptura, mas um convite à reinvenção da escuta global. Taubira defende que o diálogo entre as nações só é possível quando há espaço para a diversidade — de idiomas, visões e sensibilidades. “A língua é mais que palavras: é imaginário, é forma de dizer o mundo”, lembra.

Além da política, a ex-ministra enxerga na poesia uma ferramenta de reconciliação. “Quando o debate político se torna áspero, é a poesia que nos permite compreender o outro e fazer justiça social. A poesia nos convida a reconhecer que o outro carrega um pouco de nós.”

Via: Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP
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