No norte do Mato Grosso, a 790 quilômetros de Cuiabá, existe uma reserva que já revelou mais de mil espécies de borboletas aos cientistas, um número que supera o dobro de tudo o que se conhece na Europa inteira. Foi nesse território, a Reserva Particular do Patrimônio Natural do Cristalino, que pesquisadoras encontraram uma espécie cujo modo de vida reescreve o que se sabia sobre a relação entre lagartas e formigas.
A Annulata kaminskii, descrita oficialmente em 2025 e publicada na revista científica Neotropical Entomology, não se alimenta de folhas como a esmagadora maioria das borboletas. Suas larvas vivem uma vida líquida, dependente de néctar e cera produzidos por cochonilhas que habitam bosques de bambu, e retribuem esse alimento com uma secreção açucarada que sustenta duas espécies distintas de formigas ao mesmo tempo. O resultado é o primeiro sistema com quatro níveis tróficos já documentado envolvendo borboletas em qualquer lugar do mundo.
Uma economia de trocas dentro do bambuzal
A cadeia começa no próprio bambu, que hospeda cochonilhas, pequenos insetos sugadores de seiva que produzem néctar e cera como subproduto de sua alimentação. É esse material que sustenta as larvas da Annulata kaminskii durante toda a fase larval, uma escolha alimentar extremamente rara para o grupo.
“A maioria das lagartas se alimenta de folhas. Essa, no entanto, depende exclusivamente do néctar e da cera produzidos pelas cochonilhas, o que torna seu modo de vida extremamente especializado”, explica Luísa Mota, doutoranda da Unicamp e primeira autora do estudo.
Para conseguir esse alimento, as lagartas desenvolveram um comportamento inédito: usam movimentos da cabeça para solicitar néctar às cochonilhas, um gesto de comunicação nunca antes registrado nesse contexto. Em paralelo, elas produzem dois tipos de secreções que funcionam como pagamento às formigas que as protegem. A primeira vem de estruturas chamadas órgãos nectários tentaculares, localizadas na parte traseira do corpo, que liberam gotículas doces quando estimuladas pela presença das formigas. A segunda é um exsudato anal, um fluido açucarado de gotas maiores, cujo registro em larvas de borboletas mirmecófilas também é inédito na literatura científica.
Duas formigas, uma trégua incomum
O aspecto mais surpreendente da descoberta talvez seja o comportamento das próprias formigas envolvidas. Duas espécies distintas, Camponotus femoratus e Crematogaster levior, dividem a tarefa de proteger a mesma lagarta, e uma delas é conhecida justamente pela agressividade extrema em outros contextos. Ainda assim, ao redor da Annulata kaminskii, as duas convivem em cooperação, funcionando como um sistema de guarda compartilhada contra predadores.
“Essa é a primeira vez que observamos um sistema com quatro níveis tróficos envolvendo borboletas, formigas, escamas de bambu e cochonilhas. Encontramos as larvas interagindo de forma muito especial, algo nunca documentado antes”, afirma Noemy Seraphim, pesquisadora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo e especialista em borboletas.
A troca funciona como um contrato biológico invisível: enquanto a lagarta fornece alimento açucarado e energético, as formigas garantem território seguro contra ataques externos, permitindo que ela complete seu desenvolvimento em um ambiente hostil como o solo da floresta amazônica.
O nome, a origem e o que ainda intriga os cientistas
A espécie recebeu o nome kaminskii em homenagem ao pesquisador Lucas Kaminski, da Universidade Federal de Alagoas, especialista reconhecido em interações entre formigas e borboletas. É a segunda espécie nova descrita por Luísa Mota na região do Cristalino, depois da Cristalinaia vitoria, publicada em 2019.
Um detalhe reforça o quanto essa espécie ainda guarda mistérios: tentativas de criar as lagartas em cativeiro fracassaram completamente, o que significa que absolutamente tudo o que se sabe sobre seu comportamento vem exclusivamente de observação em campo. Isso torna a reserva do Cristalino um laboratório vivo insubstituível para esse tipo de pesquisa, e ajuda a explicar por que descobertas como essa continuam surgindo décadas depois do início das expedições científicas na região.
Por que esse tipo de relação é tão raro na natureza
Sistemas com múltiplos níveis tróficos interdependentes exigem estabilidade ambiental de longo prazo para se formar e se manter. Cada espécie da cadeia, o bambu, a cochonilha, a lagarta e as duas formigas, depende do equilíbrio das outras quatro para sobreviver, o que torna esse tipo de arranjo extremamente vulnerável a qualquer perturbação no habitat.
Órgãos de pesquisa em ecologia tropical apontam que interações multiespécie desse tipo funcionam como indicadores sensíveis da saúde de um ecossistema: quando florestas são fragmentadas ou degradadas, cadeias como essa costumam ser as primeiras a desaparecer, muitas vezes antes mesmo de serem catalogadas pela ciência. Isso reforça o papel da RPPN Cristalino, mantida há mais de duas décadas pela Fundação Ecológica Cristalino, como um dos poucos territórios brasileiros onde esse tipo de descoberta ainda é possível.
A Amazônia meridional, região onde a nova espécie foi confirmada, permanece como uma das áreas menos estudadas do bioma em termos de entomologia, o que sugere que sistemas ecológicos igualmente complexos e ainda desconhecidos podem estar distribuídos por bambuzais semelhantes em outras partes da floresta, à espera de serem catalogados antes que o avanço do desmatamento os elimine sem registro.




