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Agro diversifica receitas e redefine estratégias para competir além da porteira

Revisão: Derick Machado
18 de maio de 2026
in Noticias
Agro diversifica receitas e redefine estratégias para competir além da porteira

O agronegócio brasileiro já não se limita à produção primária. Nos últimos cinco anos, metade das empresas do setor passou a competir em novos mercados, movimento que revela uma transformação estrutural impulsionada por inovação tecnológica, pressão climática e necessidade de ampliar margens. A constatação faz parte da 29ª edição da Global CEO Survey, da PwC, que ouviu 4,4 mil líderes empresariais em 95 países, sendo que 20% dos executivos brasileiros entrevistados atuam no agro.

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O dado de que 50% dos CEOs do agronegócio nacional afirmam ter expandido sua atuação para novos setores acompanha a média brasileira geral, de 51%, e supera a média global, que ficou em 42%. Sob essa ótica, o setor demonstra uma capacidade de adaptação acima da média internacional, especialmente diante de um cenário marcado por instabilidade econômica e volatilidade de preços.

Segundo Mayra Theis, sócia e líder de agronegócio da PwC Brasil, essa mudança está diretamente ligada à migração de receitas. “Vemos uma migração das receitas do agronegócio impulsionada por tecnologia e busca por sustentabilidade. O agronegócio está diversificando a atuação para competir melhor”, afirma. O setor sucroenergético é um exemplo emblemático: além de açúcar e etanol, empresas passaram a investir em biogás e geração de energia elétrica. Além disso, lavouras tradicionais vêm incorporando bioinsumos e reaproveitando resíduos, como no caso do biochar produzido a partir do café.

Essa estratégia não representa apenas diversificação, mas também uma tentativa de reduzir exposição a ciclos de commodities. Dessa forma, o produtor e a indústria agropecuária deixam de depender exclusivamente do preço internacional dos grãos ou da proteína animal e passam a explorar novas cadeias de valor.

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Inteligência artificial começa a alterar margens

Outro ponto relevante do estudo é o avanço da inteligência artificial nas operações agroindustriais. Diferentemente de levantamentos anteriores, a pesquisa identificou impacto concreto nos resultados financeiros das empresas do setor. No Brasil, 33% dos CEOs do agro relatam aumento de receita atribuído ao uso de IA, percentual superior à média global, de 29%. Entretanto, 58% ainda percebem pouca ou nenhuma alteração nas receitas.

No campo dos custos, o cenário é semelhante: um terço dos executivos brasileiros observa redução de despesas com a adoção de IA, enquanto 48% afirmam que o efeito ainda é limitado. “Vemos um avanço, mas ainda há um longo caminho para que a maioria perceba ganhos com a IA”, pondera Theis.

Na prática, a tecnologia vem sendo aplicada na otimização logística, na eficiência operacional das fazendas e na detecção precoce de pragas. Além disso, cresce a integração de dados gerados por maquinários agrícolas conectados. Conforme destaca Theis, há uma demanda crescente entre agtechs para transformar esse volume de dados em inteligência aplicada. Com a expansão da conectividade rural, incluindo 5G e satélites, a escala de uso da IA tende a se ampliar significativamente.

Contudo, essa transformação tecnológica também traz implicações no mercado de trabalho. Sessenta por cento dos CEOs brasileiros acreditam que haverá redução na contratação de profissionais em início de carreira nos próximos três anos. Um terço desse grupo projeta cortes superiores a 16% no quadro funcional. Para cargos médios e seniores, o impacto estimado é menor, o que indica uma reconfiguração do perfil de qualificação exigido.

Otimismo moderado e pressão sobre margens

Apesar da diversificação e do avanço tecnológico, o nível de confiança dos líderes do agro recuou em relação ao ano anterior. Metade dos entrevistados projeta aceleração do crescimento global em 2026, percentual inferior aos 66% registrados na pesquisa passada e também abaixo da média mundial atual.

Quando o foco é o crescimento do Brasil, 58% dos CEOs do agro demonstram otimismo, ligeiramente acima da média global. Entretanto, ao avaliar o desempenho da própria empresa, apenas 38% esperam aumento de receita em 2026, número que já foi de 48% no levantamento anterior. Em horizonte de três anos, a expectativa também diminuiu, passando de 66% para 55%.

De acordo com Theis, essa redução no entusiasmo está diretamente ligada ao aumento das taxas de juros, à queda nos preços dos grãos e à inflação dos insumos. Assim, mesmo com inovação e novos mercados, a pressão sobre as margens permanece um fator determinante nas decisões estratégicas.

Riscos estruturais e foco em inovação

Entre os principais riscos apontados pelos executivos estão a inflação, citada por 35% dos entrevistados, seguida por instabilidade econômica e mudanças climáticas, ambas com 33%. Conflitos geopolíticos, escassez de mão de obra qualificada e tarifas também aparecem como fontes de preocupação.

Curiosamente, embora as mudanças climáticas figurem entre os riscos, elas perdem espaço relativo para a inflação. Segundo Theis, isso ocorre porque muitas empresas do setor já incorporaram planos de sustentabilidade e mitigação climática. Por outro lado, a inflação de insumos impacta diretamente a decisão de plantio e a rentabilidade da próxima safra, tornando-se um fator mais imediato para o caixa do produtor.

Ainda assim, a inovação se consolida como pilar estratégico. Sessenta e três por cento dos CEOs brasileiros do agro consideram a inovação um componente crítico do negócio, índice superior à média global. Além disso, cresce a colaboração com parceiros externos, como startups, universidades e fornecedores, estratégia adotada por 38% dos executivos nacionais.

Essa combinação entre diversificação, tecnologia e cooperação sinaliza que o agronegócio brasileiro está atravessando uma fase de reposicionamento competitivo. Embora o ambiente macroeconômico imponha cautela, o setor demonstra disposição para redefinir fronteiras, ampliar fontes de receita e integrar inteligência digital ao campo — um movimento que tende a moldar o agro da próxima década.

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