Eco, Clima & Sustentabilidade
O jardim bonito pode estar destruindo a mata ao lado, e a ciência já provou isso
Pesquisa da BPBES, divulgada pelo Jornal da USP, identifica dezenas de espécies ornamentais que escaparam do paisagismo urbano e hoje dominam remanescentes de vegetação nativa no Brasil
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Passeie por qualquer parque urbano brasileiro e é provável que boa parte do verde que você vê ali não seja nativo. Palmeiras esguias, arbustos floridos, gramíneas ornamentais: muitas dessas plantas foram escolhidas ao longo de décadas por um único critério, a beleza estética. O problema é que uma parcela significativa delas não ficou nos limites do jardim. Escapou, se instalou em áreas naturais próximas e hoje figura entre as espécies invasoras mais preocupantes do país.
O Relatório Temático sobre Espécies Exóticas Invasoras, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, produzido pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e amplamente divulgado pelo Jornal da USP, trouxe um dado que reposiciona completamente o debate sobre paisagismo no Brasil. Segundo a Base de Dados Nacional de Espécies Exóticas Invasoras, mantida pelo Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, as plantas ornamentais representam cerca de 70% de todas as espécies exóticas invasoras registradas no território nacional. Não se trata de uma minoria de casos isolados. É a principal porta de entrada de invasões biológicas vegetais no país.
O caso que virou símbolo em São Paulo
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica acontece bem no centro de São Paulo. A palmeira-australiana (Archontophoenix cunninghamiana), espécie ornamental introduzida por sua elegância e crescimento rápido, se instalou no Parque Trianon, na Avenida Paulista, e também na reserva de Mata Atlântica da Cidade Universitária da USP, conhecida como a matinha. A planta se espalhou de forma tão intensa que passou a competir diretamente com espécies nativas, ocupando o espaço que antes pertencia à vegetação original do bioma.
A professora Vânia Regina Pivello, do Instituto de Biociências da USP e pesquisadora do Laboratório de Ecologia da Paisagem e Conservação, coordenou um dos primeiros testes de controle dessa palmeira justamente na matinha da universidade, antes de o problema ser enfrentado no Trianon. O episódio revelou uma camada adicional do desafio: quando as palmeiras foram cortadas para conter o avanço, parte da população reagiu contra a ação, por acreditar que a intervenção estava destruindo a flora local, quando na verdade retirava uma espécie exótica que ameaçava justamente a vegetação nativa. Foi necessário um trabalho extenso de educação ambiental para reverter essa percepção equivocada.
Por que plantas ornamentais se tornam tão perigosas
A explicação para essa vulnerabilidade está nas próprias características que tornam uma planta atraente para o paisagismo. Espécies escolhidas para jardins costumam ter crescimento rápido, alta capacidade de reprodução, resistência a diferentes condições de solo e clima, e flores ou folhagens vistosas que facilitam sua disseminação por pássaros e outros animais. São exatamente essas qualidades, valorizadas na hora do plantio, que permitem que a espécie se estabeleça com facilidade fora dos limites do jardim quando suas sementes ou mudas alcançam áreas naturais próximas.
O lírio-do-brejo (Hedychium coronarium) ilustra bem esse mecanismo. Nativo da Ásia, foi introduzido no Brasil como planta ornamental e se espalhou rapidamente pelas regiões Sul e Sudeste, adaptando-se com facilidade às margens de lagos e cursos d’água. Hoje a espécie invade canais e riachos, além de causar entupimentos em tubulações de hidrelétricas, segundo dados do Instituto Hórus. Por não conviver bem com outras espécies, o lírio-do-brejo acaba expulsando plantas nativas de seu habitat original, um problema particularmente grave em áreas remanescentes de Mata Atlântica.
Outro caso relevante é o do ipê-de-jardim (Tecoma stans), planta trazida da América Central para uso ornamental no estado de São Paulo na década de 1970. A espécie se espalhou de forma tão agressiva que hoje já invade mais de 50 mil hectares de pastagem na região de Londrina e Assaí, no Paraná, mostrando que o problema criado em ambiente urbano frequentemente extrapola os limites da cidade e alcança áreas rurais.
O impacto que vai além da estética
Os números do relatório da BPBES dimensionam a gravidade do problema em escala nacional. O documento identifica entre 476 e mais de 500 espécies exóticas invasoras no Brasil, dependendo do levantamento consultado, sendo que as plantas respondem por cerca de 200 desses registros. O prejuízo econômico anual causado por todas as espécies invasoras no país, entre plantas e animais, é estimado entre 2 e 3 bilhões de dólares, considerando impactos sobre agricultura, infraestrutura, saúde pública e serviços ambientais.
Áreas urbanas concentram parte expressiva dessas invasões justamente por reunirem alta circulação de pessoas, mercadorias e viveiros de plantas comerciais. O relatório aponta que ambientes degradados ou de intenso uso humano são especialmente vulneráveis à instalação dessas espécies, criando um ciclo em que jardins, praças e áreas verdes urbanas funcionam como ponto de partida para a colonização de fragmentos florestais próximos.
Um levantamento conduzido na área urbana de Curitiba, publicado pela Revista Floresta da UFPR, encontrou que 58% das espécies vegetais registradas na cidade eram exóticas, com destaque para plantas amplamente usadas em paisagismo, como a espada-de-são-jorge, o agapanto e a trapoeraba. Esse tipo de mapeamento mostra que a presença dessas espécies não é um fenômeno isolado de uma cidade ou região específica, mas um padrão que se repete em centros urbanos por todo o país.
O mercado que resiste à mudança
Um dos pontos mais delicados levantados pelos pesquisadores da BPBES é a resistência que vem do próprio setor econômico ligado à comercialização dessas espécies. Produtores e viveiristas frequentemente pressionam contra a rotulação oficial de determinadas plantas como invasoras, temendo perda de valor comercial ou dificuldades em processos de certificação. Essa tensão explica, em parte, por que o Brasil ainda não tem uma lista oficial nacional de espécies exóticas invasoras, dependendo de bases de dados mantidas por organizações como o Instituto Hórus e de listas estaduais adotadas por unidades da federação como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Distrito Federal e Bahia.
Essa lacuna tem consequência direta na prática do paisagismo. Sem uma referência nacional unificada e amplamente divulgada, arquitetos paisagistas, viveiros e até órgãos públicos municipais continuam especificando e comercializando espécies com histórico comprovado de invasão, muitas vezes por desconhecimento e não por má-fé.
Alternativas já existem, e são conhecidas
O contraponto ao problema já está documentado. Iniciativas como o Guia sobre Plantas Nativas Ornamentais de Restinga, elaborado por pesquisadores da UFSC em parceria com o Instituto Hórus, e o livreto Exóticos Invasores, produzido pela FATMA, reúnem alternativas nativas com apelo estético equivalente ao das espécies exóticas mais usadas hoje. A plataforma Arquiflora também disponibiliza consultas por região, permitindo que profissionais de paisagismo substituam espécies de risco por opções nativas adequadas ao clima e ao solo de cada localidade.
O caminho, segundo os próprios pesquisadores envolvidos no relatório da BPBES, não passa pela proibição indiscriminada de plantas ornamentais, mas pela avaliação de risco de invasão antes da adoção em larga escala, aliada à ampliação do uso de espécies nativas em projetos paisagísticos públicos e privados. Cidades que adotam esse critério na escolha de mudas para arborização e jardinagem reduzem significativamente a pressão sobre os fragmentos de vegetação nativa que ainda resistem dentro do tecido urbano.
O verde que embeleza uma praça pode, sem que ninguém perceba, estar corroendo o verde que sustenta um ecossistema inteiro logo ali ao lado. Entender essa distinção é o primeiro passo para que o paisagismo brasileiro pare de ser, sem querer, um dos maiores vetores de perda de biodiversidade do país.
Mania de Plantas é uma publicação digital brasileira inteiramente dedicada ao universo da jardinagem, paisagismo, botânica e sustentabilidade. Com uma equipe editorial apaixonada por natureza, o portal entrega conteúdos práticos, inspirações de decoração verde e guias acessíveis para quem deseja cultivar o bem-estar e trazer mais vida para o seu dia a dia, seja em grandes jardins ou em pequenos espaços urbanos.
Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em jardinagem, botânica urbana e paisagismo residencial. Acompanha de perto as principais tendências de design biofílico, técnicas de cultivo sustentável e inovações no manejo de plantas para ambientes internos e externos, sempre com base em referências de institutos botânicos, universidades e especialistas do setor.
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