Existem famílias de plantas que resistem à identificação mesmo depois de séculos de estudo botânico. A Lauraceae, grupo que reúne a canela, o abacateiro e a imbuia, é uma delas. As folhas se parecem entre si, as flores são minúsculas e os caracteres que distinguem uma espécie da outra muitas vezes exigem análise microscópica de estruturas como os esporângios das anteras. Não é exagero dizer que essa família é considerada um dos grupos mais desafiadores da flora brasileira para taxonomistas.
Foi justamente nesse terreno complexo que João Batista Baitello construiu uma carreira de quase 50 anos. Ingressou no então Instituto Florestal de São Paulo em 1976 e assumiu a curadoria do Herbário Dom Bento José Pickel, acervo que hoje ultrapassa 55 mil exsicatas e ocupa posição entre os mais importantes do estado. Ao longo desse período, identificou e descreveu 11 novas espécies para a ciência, todas pertencentes à família Lauraceae.
Um acervo que atravessou quase um século
O Herbário Dom Bento José Pickel não nasceu com Baitello, mas foi sob sua curadoria que atingiu a maturidade científica que tem hoje. A coleção remonta a 1927, quando os engenheiros silvicultores Octávio Vecchi e Mansueto Koscinski iniciaram os primeiros registros junto ao então Museu Florestal do Serviço Florestal do Estado de São Paulo. Depois da morte de Koscinski, em 1951, o monge beneditino Dom Bento José Pickel assumiu a coleção e a expandiu até deixar, em sua aposentadoria em 1960, um acervo de 5.515 exsicatas.
O que poucos sabem é que, entre 1960 e 1976, o herbário ficou praticamente inativo por 16 anos. Foi Baitello quem o reativou ao assumir a curadoria, e sob sua gestão a coleção cresceu de forma constante até ultrapassar as 55 mil exsicatas registradas atualmente, tornando-se o sexto maior herbário do estado de São Paulo e uma referência nacional para o estudo de espécies coletadas em unidades de conservação.
O trabalho de decifrar um grupo botânico difícil
Identificar uma nova espécie dentro da família Lauraceae não é tarefa trivial. Em uma entrevista concedida ao Instituto de Pesquisas Ambientais, o próprio Baitello descreveu a raridade da especialização que desenvolveu ao longo da carreira: “somos menos de dez” pesquisadores no país com domínio completo da taxonomia desse grupo botânico.
Um dos casos mais emblemáticos dessa dificuldade foi a descrição da Ocotea bilocellata, publicada em 2023. Até aquele momento, nenhuma espécie do gênero Ocotea havia sido documentada com dois esporângios nas anteras, característica que normalmente aparece em quatro unidades nesse grupo. A descoberta exigiu não apenas observação morfológica detalhada de flores, folhas e frutos, mas também sequenciamento genético para confirmar que se tratava de fato de uma espécie distinta e não de uma variação dentro de outra já catalogada.
Baitello explicou a lógica por trás dessas classificações destacando que os gêneros da família não se definem apenas por um único caractere isolado, mas pela soma de um conjunto de características morfológicas de toda a planta. Esse princípio metodológico é o que permitiu distinguir a nova espécie de sua parente mais próxima, a Ocotea daphnifolia, que apresenta estrutura floral diferente apesar da semelhança visual entre as duas árvores.
Descobertas que carregam nomes e histórias
Cada espécie descrita por Baitello carrega, além do valor científico, um pedaço da história da botânica paulista. Em 2017, ao lado do pesquisador Marcelo Leandro Brotto, do Museu Botânico Municipal de Curitiba, Baitello descreveu a Ocotea koscinskii, batizada em homenagem a Mansueto Koscinski, um dos fundadores da coleção que hoje é o herbário SPSF. A árvore, encontrada durante uma análise mais detalhada de exemplares coletados no Parque Estadual da Cantareira, pode atingir até 40 metros de altura em ambientes preservados, o que torna surpreendente o fato de ter passado despercebida por tanto tempo entre coletas já catalogadas como uma espécie diferente.
Esse tipo de descoberta reforça um dado pouco divulgado sobre a biodiversidade brasileira: mesmo depois de décadas de expedições e coletas, uma parcela significativa da flora nacional ainda aguarda identificação formal. Levantamentos ligados ao projeto Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo já resultaram na publicação de tratamentos monográficos para 152 famílias de angiospermas, totalizando 3.759 espécies catalogadas em oito volumes, e mesmo assim os pesquisadores da área reconhecem que o conhecimento sobre a biodiversidade paulista está longe de ser considerado completo.
Da taxonomia à saúde pública
O trabalho de identificação botânica de Baitello também teve desdobramentos que vão além da ciência pura. Um exemplo notável envolveu a canela-amarela (Nectandra barbellata), espécie nativa da Mata Atlântica de São Paulo e do Espírito Santo e classificada como vulnerável pela Lista Vermelha do Centro Nacional de Conservação da Flora. Baitello participou da coleta e identificação do material vegetal usado em uma pesquisa publicada na revista científica Bioorganic Chemistry, que identificou no galho dessa árvore o ácido cóstico, substância capaz de alterar o metabolismo do parasita Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas.
O achado ilustra um ponto que frequentemente escapa ao debate público sobre conservação: a preservação de unidades de conservação como o Parque Estadual Alberto Löfgren, onde a canela-amarela foi coletada, não é relevante apenas para a manutenção de ecossistemas, mas também representa reserva estratégica para pesquisa médica e farmacológica. Espécies vegetais ainda não estudadas quimicamente podem esconder compostos com aplicação terapêutica que só são descobertos décadas depois de a planta ter sido catalogada.
Um legado que orienta quem vem depois
Ao longo de quase 50 anos de dedicação ao Instituto Florestal e, posteriormente, ao Instituto de Pesquisas Ambientais, Baitello também formou uma geração de pesquisadores. Participou de 15 bancas de mestrado e 6 de doutorado, além de identificar materiais de Lauraceae enviados por pesquisadores de todo o país, contribuindo indiretamente para inúmeros trabalhos científicos que não levam seu nome, mas dependeram de sua expertise para avançar.
Em 2017, o trabalho foi reconhecido com a medalha Alba Lavras, concedida pela Associação de Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo. Em 2020, publicou um livro reunindo ilustrações botânicas e fotografias históricas do antigo Serviço Florestal, resgatando um período de quase duas décadas de produção técnico-científica da instituição que passaria despercebido sem esse trabalho de curadoria histórica.
A trajetória de Baitello resume algo maior sobre a ciência brasileira: descobertas de espécies raramente acontecem em um único momento de euforia. Elas são o resultado de décadas de observação paciente, comparação de exsicatas antigas e disposição para questionar classificações já estabelecidas. Enquanto o Brasil segue destacando-se pela riqueza de sua flora, são pesquisadores como Baitello, em silêncio, dentro de herbários históricos, que garantem que essa riqueza seja de fato conhecida, nomeada e preservada.




