Existe uma ideia recorrente sobre florestas tropicais depois de um incêndio: a vegetação queimada dá lugar, aos poucos, ao mesmo tipo de mata que existia antes. Um experimento conduzido durante duas décadas em Mato Grosso mostra que essa expectativa é parcialmente verdadeira, e a parte que não se confirma revela algo mais interessante do que a simples recuperação.
O estudo aconteceu no sítio experimental de Tanguro, uma área de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado, onde pesquisadores acompanharam três parcelas de 50 hectares cada entre 2004 e 2024. Uma delas nunca foi queimada e serviu como controle. As outras duas passaram por ciclos de fogo controlado, uma com queimas anuais entre 2004 e 2010, outra com queimas a cada três anos, também nesse período. Passadas duas décadas, os resultados publicados na revista científica PNAS mostram um padrão que ninguém havia documentado com esse nível de detalhe: a floresta se recupera de formas radicalmente diferentes dependendo de onde você olha dentro dela.
O interior se recompõe, a borda não
No coração das parcelas queimadas, longe do contato com pastagens e áreas abertas, a recuperação foi rápida depois que o fogo parou de ser aplicado. A estrutura da vegetação voltou a se fechar, o dossel se recompôs e a diversidade de espécies se manteve relativamente estável ao longo dos anos seguintes. Esse resultado por si só já seria motivo de otimismo moderado para quem estuda a resiliência da Amazônia.
O problema aparece nas bordas. Nessas faixas de transição entre a mata e o ambiente aberto, onde o vento seca mais rápido, a luz solar penetra com mais intensidade e o contato com áreas de pastagem é direto, o processo de recuperação foi muito mais lento e incompleto. Entre 2004 e 2024, a riqueza de espécies nessas margens caiu entre 20% e 46%, um intervalo amplo que reflete a variação encontrada entre os diferentes pontos de amostragem ao longo da borda florestal.
O efeito de borda, fenômeno já conhecido pela ecologia, ocorre justamente nessas margens onde a floresta encontra ambientes abertos como pastagens, estradas e lavouras. O contato direto altera o microclima local, tornando as bordas mais secas e mais expostas ao vento, condições que favorecem a entrada de espécies invasoras e dificultam o retorno da vegetação nativa original.
Gramíneas de origem africana tomaram as margens queimadas
Um dos achados mais concretos do estudo é a identificação das espécies que ocuparam o espaço deixado pela vegetação nativa nas áreas de borda. Gramíneas exóticas, com destaque para espécies como Aristida longifolia e Imperata sp, de origem africana, se estabeleceram ao longo das margens queimadas e competiram diretamente com o processo natural de regeneração das árvores.
O comportamento dessas gramíneas ajuda a explicar por que a recuperação nas bordas foi tão mais difícil. Elas funcionam como combustível para incêndios de maior intensidade, o que criou um ciclo de retroalimentação: quanto mais essas plantas se espalhavam, maior a chance de fogos intensos, e quanto mais intensos os fogos, mais espaço se abria para que essas mesmas gramíneas se expandissem ainda mais. Após os incêndios de maior severidade registrados no experimento, uma espécie em particular, a Andropogon gayanus, avançou pelas bordas e atingiu seu pico de ocupação em 2012, dois anos após o fim do ciclo de queimas controladas.
A floresta voltou, mas não é a mesma floresta
Um ponto central da pesquisa é que a recuperação estrutural não significa retorno à composição original de espécies. Com o passar do tempo e o fechamento progressivo do dossel, especialmente a partir de 2016, as gramíneas invasoras reduziram drasticamente sua presença dentro das parcelas queimadas. A vegetação lenhosa voltou a dominar a paisagem e alguns serviços ecossistêmicos importantes, como os fluxos de carbono e de água, também se recuperaram.
O que não retornou, mesmo depois de 14 anos sem queimadas, foi a composição original de espécies vegetais, principalmente daquelas consideradas especialistas de floresta, ou seja, espécies que dependem de condições muito específicas de sombra, umidade e estabilidade para sobreviver. Em seu lugar, a floresta passou a abrigar espécies mais generalistas, com maior tolerância à seca, mas que segundo os pesquisadores estão operando em limiares perigosos de resistência ambiental.
“A escolha do lugar é chave, já que modelos climáticos consideram que a região de transição da Amazônia para o Cerrado será a primeira a sofrer mudanças com os impactos do aquecimento global. Essa pesquisa é inovadora porque integra múltiplos fatores estressantes, como fogo, vento forte e seca, e mostra que a floresta sofreu, se degradou e depois voltou. Mais empobrecida de espécies, porém ainda com características de floresta”, explica Rafael Silva Oliveira, ecólogo e professor do Instituto de Biologia da Unicamp.
Resiliente, mas nem de longe indestrutível
O estudo é enfático ao descartar uma hipótese que preocupava parte da comunidade científica nos últimos anos: a chamada savanização da Amazônia, processo pelo qual áreas de floresta tropical se transformariam permanentemente em savana após ciclos repetidos de degradação. Os dados de Tanguro mostram o oposto. Mesmo empobrecida em diversidade, a vegetação recuperada manteve características estruturais e funcionais de floresta, não de savana.
Essa conclusão tem peso porque o experimento foi desenhado justamente para simular, de forma controlada, o tipo de estresse múltiplo que a Amazônia real enfrenta: fogo recorrente, tempestades de vento e períodos de seca prolongada. A escolha do sítio de Tanguro não foi aleatória. Por estar exatamente na zona de transição entre dois biomas, essa é uma das regiões que os modelos climáticos apontam como a primeira a sentir com intensidade os efeitos do aquecimento global no território brasileiro.
“No sítio experimental, temos o controle e o fogo não ocorre mais na área, o que não é possível fazer na Amazônia toda. Elas são resilientes, mas, mesmo assim, é preciso preservar”, afirma o biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do estudo junto com o engenheiro florestal Paulo Brando.
Por que essa diferença entre interior e borda importa tanto
O contraste entre a recuperação rápida no interior e o processo lento nas margens carrega uma implicação prática relevante para quem pensa em restauração florestal e políticas de conservação. Proteger apenas o núcleo de uma área florestal não é suficiente para garantir a resiliência do sistema como um todo. As bordas são o ponto de entrada de espécies invasoras, o local onde o microclima muda primeiro e onde o risco de novos incêndios se concentra com mais força.
Isso significa que estratégias de recuperação florestal precisam dar atenção especial justamente às margens de contato entre floresta e áreas abertas, seja com barreiras de vegetação nativa, contenção ativa de gramíneas invasoras ou manejo do fogo nas proximidades de fazendas e estradas. Ignorar essa zona de transição é deixar aberta a porta pela qual a degradação mais provavelmente avança.
O experimento de Tanguro, com duas décadas de dados de campo, oferece um raro exemplo de como a ciência consegue capturar, em tempo real, o processo completo de degradação e recuperação de um ecossistema tropical. É um relógio ecológico que mostra não apenas se a floresta volta, mas como ela volta, e onde exatamente esse retorno enfrenta mais resistência.
Referências
- Agência FAPESP — Incêndios, secas e tempestades de vento tornam vegetação da Amazônia menos diversa: https://agencia.fapesp.br/incendios-secas-e-tempestades-de-vento-tornam-vegetacao-da-amazonia-menos-diversa/57819




