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São Paulo tem uma árvore que a ciência só conheceu agora, e ela já nasce em risco

São Paulo tem uma árvore que a ciência só conheceu agora, e ela já nasce em risco

A Myrcia tenondeporan é a mais recente espécie descrita na Mata Atlântica paulista, resultado de anos de expedições de campo em meio à zona sul da capital

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Mel Maria
3 de julho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência

Existe uma árvore em São Paulo que carrega um nome científico há pouco mais de dois anos, mas que provavelmente cresce na cidade há muito mais tempo do que isso. A Myrcia tenondeporan foi descrita formalmente em 2023 em um artigo publicado na revista Phytotaxa, referência mundial em taxonomia botânica, e representa um daqueles casos raros em que a ciência confirma que ainda existe muito por descobrir mesmo dentro dos limites de uma metrópole com mais de 12 milhões de habitantes.

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A descoberta é fruto de um trabalho conjunto entre o pesquisador Matheus Fortes Santos, da Universidade Federal do ABC, e o biólogo Eduardo Hortal Pereira Barretto, coordenador do Herbário Municipal de São Paulo. O processo envolveu expedições de campo, análise comparativa de espécimes em herbário e revisão extensa da literatura científica sobre o gênero Myrcia, que reúne cerca de 400 espécies só no Brasil.

Uma árvore pequena com um nome de peso simbólico

A Myrcia tenondeporan pertence à família Myrtaceae, o mesmo grupo botânico que reúne espécies economicamente importantes como a goiabeira e a pitangueira, além de plantas ornamentais amplamente cultivadas em jardins urbanos. No continente americano, essa família reúne 37 gêneros e mais de 2.050 espécies catalogadas, o que dá a dimensão da diversidade que ainda está sendo mapeada.

A espécie é uma árvore de pequeno a médio porte, relativamente comum nas florestas remanescentes da zona sul do município, e foi encontrada em áreas próximas ao território indígena Tenondé Porã, região que abriga cerca de 1.500 indígenas guarani e que combina forte urbanização com trechos significativos de vegetação nativa preservada. O nome científico da árvore é uma homenagem direta a esse território, reconhecendo tanto o local da coleta quanto a relação histórica entre o povo guarani e a floresta que ainda resiste na região.

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Do ponto de vista morfológico, o que diferencia a Myrcia tenondeporan de espécies próximas, como a Myrcia vellozoi e a Myrcia multipunctata, está em detalhes que exigem olhar treinado: o formato e o tamanho das folhas, a estrutura das inflorescências e as dimensões dos botões florais. São variações sutis que só se tornam evidentes depois de comparação cuidadosa entre exemplares coletados em campo e material depositado em herbário.

“A importância da lista vai além do registro e orienta também o plantio correto no município”, explica Luara Granato, engenheira florestal do Herbário Municipal de São Paulo, ao comentar o papel do levantamento de espécies nativas na orientação de políticas de arborização urbana.

O paradoxo de nascer rara

A árvore floresce principalmente entre novembro e dezembro, no fim da primavera e início do verão, e produz frutos durante praticamente todo o ano, com maturação concentrada entre agosto e dezembro. Esse padrão reprodutivo, somado à distribuição geográfica restrita, já é suficiente para que os próprios autores do estudo classifiquem a espécie como vulnerável, mesmo sem dados suficientes para estimar com precisão o tamanho total da população.

A explicação para essa classificação está diretamente ligada ao estado da Mata Atlântica no Brasil. O bioma, que originalmente cobria uma faixa extensa do litoral brasileiro, hoje conserva apenas 24% de sua extensão original, segundo dados do Atlas dos Remanescentes Florestais produzido pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Boa parte do que resta está fragmentado em manchas pequenas e isoladas, exatamente o cenário que caracteriza a zona sul de São Paulo, onde a Myrcia tenondeporan foi encontrada.

“A descoberta de novas espécies na região metropolitana é um indicador de que ainda temos muito a conhecer sobre nossa flora e da necessidade do fortalecimento de políticas públicas voltadas para o conhecimento científico e para conservação ambiental”, afirma Eduardo Hortal Pereira Barretto, coordenador do Herbário Municipal de São Paulo.

O que essa descoberta revela sobre a cidade

A zona sul de São Paulo concentra alguns dos últimos fragmentos significativos de Mata Atlântica dentro dos limites municipais, área que inclui trechos de proteção ambiental e remanescentes de floresta que resistiram ao avanço da mancha urbana. É justamente essa combinação de urbanização intensa e persistência de vegetação nativa que torna a região um alvo relevante para expedições botânicas, ainda que a maior parte das pessoas que vivem na cidade nunca tenha ouvido falar da existência dessas áreas.

O trabalho de identificação da Myrcia tenondeporan não termina com a publicação do artigo científico. Segundo Matheus Fortes Santos, os próximos passos da pesquisa envolvem uma revisão taxonômica completa do subgrupo de Myrcia ao qual a nova espécie pertence, incluindo a caracterização de todas as espécies relacionadas, seus ambientes de ocorrência e outros dados básicos sobre a biodiversidade do grupo. Esse levantamento deve funcionar como referência para futuras pesquisas envolvendo o gênero.

A espécie já foi incluída na lista oficial de árvores nativas do município de São Paulo, atualizada recentemente pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, que passou a reunir 673 espécies nativas catalogadas dentro dos limites da cidade. Esse tipo de levantamento tem função prática direta: orientar o plantio correto em programas de arborização urbana e evitar o uso indiscriminado de espécies exóticas, que podem competir com a flora nativa e reduzir a diversidade dos ecossistemas remanescentes.

Uma descoberta que também é um alerta

O caso da Myrcia tenondeporan ilustra um fenômeno que a ciência botânica brasileira vem documentando com frequência crescente: espécies inteiras podem estar restritas a fragmentos florestais tão pequenos e isolados que correm risco de desaparecer antes mesmo de serem formalmente descritas. Cada nova espécie encontrada em meio à malha urbana de uma cidade do tamanho de São Paulo reforça a urgência de proteger os poucos remanescentes de vegetação nativa que ainda existem entre bairros, avenidas e áreas construídas.

Do ponto de vista científico, a descoberta também confirma algo relevante sobre o próprio processo de conhecimento da biodiversidade brasileira. A Mata Atlântica, apesar de ser um dos biomas mais estudados e mais destruídos do país, ainda guarda espécies que nenhum pesquisador havia catalogado formalmente. Isso significa que o trabalho de inventário florístico, muitas vezes visto como tarefa de bastidores da ciência, continua sendo essencial para que se saiba exatamente o que existe antes que deixe de existir.


Referências

  • Santos, M.F. & Barretto, E.H.P. (2023). Myrcia tenondeporan, a new species of Myrtaceae from the Atlantic Forest in the Serra do Mar Mountains, Brazil. Phytotaxa, 632(1), 69-77. https://doi.org/10.11646/phytotaxa.632.1.6
  • Prefeitura de São Paulo — Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente: Nova espécie de árvore é descoberta no município de São Paulo. https://prefeitura.sp.gov.br/web/meio_ambiente/w/noticias/360494
  • Universidade Federal do ABC (UFABC) — Divulgação Científica: Pesquisa da UFABC, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, encontra nova espécie de árvore. https://www.ufabc.edu.br/divulgacao-cientifica/destaques/pesquisa-da-ufabc-em-parceria-com-a-prefeitura-de-sao-paulo-encontra-nova-especie-de-arvore
  • Prefeitura de São Paulo — Lista de espécies arbóreas nativas do município atualizada: https://prefeitura.sp.gov.br/web/meio_ambiente/w/noticias/366670
  • Fundação SOS Mata Atlântica & INPE (2022). Atlas dos remanescentes florestais da Mata Atlântica, período 2021/2022. Relatório técnico.

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    Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.

    Mel contribui ativamente com artigos especializados para importantes plataformas do setor, começando pelo blog Maniadeplantas e hoje é uma autora de destaque na Agronamidia. Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.

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