Existe uma árvore em São Paulo que carrega um nome científico há pouco mais de dois anos, mas que provavelmente cresce na cidade há muito mais tempo do que isso. A Myrcia tenondeporan foi descrita formalmente em 2023 em um artigo publicado na revista Phytotaxa, referência mundial em taxonomia botânica, e representa um daqueles casos raros em que a ciência confirma que ainda existe muito por descobrir mesmo dentro dos limites de uma metrópole com mais de 12 milhões de habitantes.
A descoberta é fruto de um trabalho conjunto entre o pesquisador Matheus Fortes Santos, da Universidade Federal do ABC, e o biólogo Eduardo Hortal Pereira Barretto, coordenador do Herbário Municipal de São Paulo. O processo envolveu expedições de campo, análise comparativa de espécimes em herbário e revisão extensa da literatura científica sobre o gênero Myrcia, que reúne cerca de 400 espécies só no Brasil.
Uma árvore pequena com um nome de peso simbólico
A Myrcia tenondeporan pertence à família Myrtaceae, o mesmo grupo botânico que reúne espécies economicamente importantes como a goiabeira e a pitangueira, além de plantas ornamentais amplamente cultivadas em jardins urbanos. No continente americano, essa família reúne 37 gêneros e mais de 2.050 espécies catalogadas, o que dá a dimensão da diversidade que ainda está sendo mapeada.
A espécie é uma árvore de pequeno a médio porte, relativamente comum nas florestas remanescentes da zona sul do município, e foi encontrada em áreas próximas ao território indígena Tenondé Porã, região que abriga cerca de 1.500 indígenas guarani e que combina forte urbanização com trechos significativos de vegetação nativa preservada. O nome científico da árvore é uma homenagem direta a esse território, reconhecendo tanto o local da coleta quanto a relação histórica entre o povo guarani e a floresta que ainda resiste na região.
Do ponto de vista morfológico, o que diferencia a Myrcia tenondeporan de espécies próximas, como a Myrcia vellozoi e a Myrcia multipunctata, está em detalhes que exigem olhar treinado: o formato e o tamanho das folhas, a estrutura das inflorescências e as dimensões dos botões florais. São variações sutis que só se tornam evidentes depois de comparação cuidadosa entre exemplares coletados em campo e material depositado em herbário.
“A importância da lista vai além do registro e orienta também o plantio correto no município”, explica Luara Granato, engenheira florestal do Herbário Municipal de São Paulo, ao comentar o papel do levantamento de espécies nativas na orientação de políticas de arborização urbana.
O paradoxo de nascer rara
A árvore floresce principalmente entre novembro e dezembro, no fim da primavera e início do verão, e produz frutos durante praticamente todo o ano, com maturação concentrada entre agosto e dezembro. Esse padrão reprodutivo, somado à distribuição geográfica restrita, já é suficiente para que os próprios autores do estudo classifiquem a espécie como vulnerável, mesmo sem dados suficientes para estimar com precisão o tamanho total da população.
A explicação para essa classificação está diretamente ligada ao estado da Mata Atlântica no Brasil. O bioma, que originalmente cobria uma faixa extensa do litoral brasileiro, hoje conserva apenas 24% de sua extensão original, segundo dados do Atlas dos Remanescentes Florestais produzido pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Boa parte do que resta está fragmentado em manchas pequenas e isoladas, exatamente o cenário que caracteriza a zona sul de São Paulo, onde a Myrcia tenondeporan foi encontrada.
“A descoberta de novas espécies na região metropolitana é um indicador de que ainda temos muito a conhecer sobre nossa flora e da necessidade do fortalecimento de políticas públicas voltadas para o conhecimento científico e para conservação ambiental”, afirma Eduardo Hortal Pereira Barretto, coordenador do Herbário Municipal de São Paulo.
O que essa descoberta revela sobre a cidade
A zona sul de São Paulo concentra alguns dos últimos fragmentos significativos de Mata Atlântica dentro dos limites municipais, área que inclui trechos de proteção ambiental e remanescentes de floresta que resistiram ao avanço da mancha urbana. É justamente essa combinação de urbanização intensa e persistência de vegetação nativa que torna a região um alvo relevante para expedições botânicas, ainda que a maior parte das pessoas que vivem na cidade nunca tenha ouvido falar da existência dessas áreas.
O trabalho de identificação da Myrcia tenondeporan não termina com a publicação do artigo científico. Segundo Matheus Fortes Santos, os próximos passos da pesquisa envolvem uma revisão taxonômica completa do subgrupo de Myrcia ao qual a nova espécie pertence, incluindo a caracterização de todas as espécies relacionadas, seus ambientes de ocorrência e outros dados básicos sobre a biodiversidade do grupo. Esse levantamento deve funcionar como referência para futuras pesquisas envolvendo o gênero.
A espécie já foi incluída na lista oficial de árvores nativas do município de São Paulo, atualizada recentemente pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, que passou a reunir 673 espécies nativas catalogadas dentro dos limites da cidade. Esse tipo de levantamento tem função prática direta: orientar o plantio correto em programas de arborização urbana e evitar o uso indiscriminado de espécies exóticas, que podem competir com a flora nativa e reduzir a diversidade dos ecossistemas remanescentes.
Uma descoberta que também é um alerta
O caso da Myrcia tenondeporan ilustra um fenômeno que a ciência botânica brasileira vem documentando com frequência crescente: espécies inteiras podem estar restritas a fragmentos florestais tão pequenos e isolados que correm risco de desaparecer antes mesmo de serem formalmente descritas. Cada nova espécie encontrada em meio à malha urbana de uma cidade do tamanho de São Paulo reforça a urgência de proteger os poucos remanescentes de vegetação nativa que ainda existem entre bairros, avenidas e áreas construídas.
Do ponto de vista científico, a descoberta também confirma algo relevante sobre o próprio processo de conhecimento da biodiversidade brasileira. A Mata Atlântica, apesar de ser um dos biomas mais estudados e mais destruídos do país, ainda guarda espécies que nenhum pesquisador havia catalogado formalmente. Isso significa que o trabalho de inventário florístico, muitas vezes visto como tarefa de bastidores da ciência, continua sendo essencial para que se saiba exatamente o que existe antes que deixe de existir.
Referências
- Santos, M.F. & Barretto, E.H.P. (2023). Myrcia tenondeporan, a new species of Myrtaceae from the Atlantic Forest in the Serra do Mar Mountains, Brazil. Phytotaxa, 632(1), 69-77. https://doi.org/10.11646/phytotaxa.632.1.6
- Prefeitura de São Paulo — Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente: Nova espécie de árvore é descoberta no município de São Paulo. https://prefeitura.sp.gov.br/web/meio_ambiente/w/noticias/360494
- Universidade Federal do ABC (UFABC) — Divulgação Científica: Pesquisa da UFABC, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, encontra nova espécie de árvore. https://www.ufabc.edu.br/divulgacao-cientifica/destaques/pesquisa-da-ufabc-em-parceria-com-a-prefeitura-de-sao-paulo-encontra-nova-especie-de-arvore
- Prefeitura de São Paulo — Lista de espécies arbóreas nativas do município atualizada: https://prefeitura.sp.gov.br/web/meio_ambiente/w/noticias/366670
- Fundação SOS Mata Atlântica & INPE (2022). Atlas dos remanescentes florestais da Mata Atlântica, período 2021/2022. Relatório técnico.




