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O que sobra da jabuticaba pode valer mais que a polpa: cascas e sementes de frutas nativas surpreendem a ciência
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3 semanas atrásem

O Brasil abriga uma das floras mais ricas do planeta, mas grande parte dela nunca chegou à mesa do brasileiro médio. Enquanto maçã, banana e laranja dominam o consumo nacional, frutas como jabuticaba, cambuci e marolo permanecem à margem dos hábitos alimentares, tratadas quase como curiosidades regionais. Uma revisão científica conduzida pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP está mudando essa percepção ao reunir décadas de estudos que apontam essas espécies como fontes concentradas de compostos capazes de proteger o organismo contra os mecanismos biológicos por trás do envelhecimento celular e de doenças crônicas.
O trabalho integra o doutorado da nutricionista Maria Carolina Zsigovics Alfino, orientado pela professora Elizabeth Aparecida Ferraz da Silva Torres, com colaboração de pesquisadores da Universidad Autónoma do Chile. A pesquisa faz parte de uma linha de investigação do grupo Alimentos, Nutrição e Saúde Mental da FSP, dedicado a mapear o potencial de compostos bioativos presentes na biodiversidade brasileira para a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. O artigo, intitulado Potential of Native Brazilian Fruits in Modulating Oxidative Stress and Inflammation: A Focused Review, foi publicado na revista científica Antioxidants em junho de 2026.
Dois mecanismos, um alvo comum
A revisão parte de um princípio bem estabelecido na literatura científica sobre envelhecimento: o estresse oxidativo e a inflamação crônica são dois processos que caminham juntos e estão na raiz de boa parte das doenças que mais afetam populações ao redor do mundo. Diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e distúrbios neurodegenerativos figuram entre as principais causas de adoecimento e mortalidade global, e o interesse científico por compostos capazes de neutralizar esses processos vem crescendo de forma consistente nas últimas duas décadas.
“Doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e neurodegenerativas, estão entre as principais causas de adoecimento e mortalidade no mundo. Identificar alimentos acessíveis e ricos em compostos bioativos capazes de auxiliar na prevenção dessas doenças tem impacto direto na promoção da saúde pública”, afirma Elizabeth Torres.
Os compostos identificados como protagonistas nesse processo têm nomes técnicos, mas função relativamente simples de entender. Flavonoides, antocianinas, carotenoides e ácidos fenólicos atuam neutralizando radicais livres, moléculas instáveis que danificam células ao longo do tempo, e reforçam os mecanismos naturais de defesa antioxidante do corpo. Ao mesmo tempo, essas substâncias reduzem a produção de moléculas inflamatórias e ajudam a regular processos celulares ligados ao surgimento de doenças crônicas.
“Ao controlar o estresse oxidativo e a inflamação crônica, dois mecanismos associados ao envelhecimento e ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas, as substâncias contribuem para a manutenção da saúde e para a prevenção de doenças crônicas”, explica Maria Carolina Alfino.
A jabuticaba na liderança, mas não sozinha
Entre as frutas analisadas na revisão, a jabuticaba se destacou como a espécie com maior volume de estudos publicados. Pesquisas com extratos da casca, da polpa e até dos galhos da planta identificaram atividade antioxidante elevada e capacidade de reduzir marcadores inflamatórios ligados à obesidade, à resistência à insulina, a inflamações intestinais e a alterações cardiovasculares. Grande parte desse efeito é atribuída às antocianinas, aos flavonoides e ao ácido elágico presentes no fruto, substâncias que atuam neutralizando radicais livres e modulando processos inflamatórios envolvidos em doenças crônicas.
O guaraná surge como uma das descobertas mais interessantes da revisão, principalmente pelo potencial neuroprotetor associado à ação combinada da cafeína e das catequinas presentes na semente. Os estudos analisados mostram que essas substâncias reduzem danos provocados pelo estresse oxidativo e pela inflamação, dois fatores diretamente relacionados à degeneração celular e a doenças que afetam o sistema nervoso.
Já o açaí revela uma face pouco explorada fora do meio científico: suas sementes, geralmente descartadas no processamento industrial, concentram quantidades elevadas de procianidinas, compostos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias comprovadas em estudos experimentais. Os resultados apontam potencial para reduzir processos inflamatórios relacionados a distúrbios metabólicos, além de complicações cardiovasculares e renais, o que reposiciona o que hoje é resíduo industrial como matéria-prima de alto valor biológico.
O cérebro também entra na equação
Um dos achados mais relevantes da revisão diz respeito à possível ação neuroprotetora dessas frutas. As substâncias presentes principalmente no guaraná demonstraram capacidade de reduzir a neuroinflamação, processo associado a doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson e a alguns transtornos psiquiátricos.
“As propriedades bioativas encontradas no guaraná atuam em mecanismos de redução da ativação excessiva de células inflamatórias do cérebro e na diminuição da produção de citocinas pró-inflamatórias, moléculas que participam da resposta inflamatória do organismo”, detalha Maria Carolina Alfino.
A revisão também aponta um efeito que vem ganhando espaço crescente na ciência da nutrição nos últimos anos: o impacto desses compostos sobre a microbiota intestinal. Ao favorecer o crescimento de bactérias benéficas e reduzir processos inflamatórios sistêmicos, esses compostos fortalecem o que pesquisadores chamam de conexão intestino-cérebro, o sistema de comunicação bidirecional entre o intestino e o sistema nervoso central que vem sendo associado a quadros de ansiedade, depressão e outras condições neuropsiquiátricas. Nesse ponto, o guaraná se destacou pelos efeitos neuroprotetores, enquanto a jabuticaba apresentou resultados promissores no controle da inflamação intestinal e na proteção celular contra danos oxidativos.
O potencial escondido nos resíduos
Um dos pontos mais originais da pesquisa está na valorização daquilo que normalmente vai para o lixo. Cascas, sementes e outros subprodutos descartados no processamento industrial e doméstico dessas frutas também apresentaram potencial biológico relevante, o que abre uma frente de pesquisa com implicações econômicas e ambientais significativas.
“Cascas, sementes e outros subprodutos geralmente descartados também apresentaram potencial biológico, ampliando as possibilidades de aproveitamento sustentável desses alimentos”, relata Elizabeth Torres.
Esse dado conecta a pesquisa a um debate mais amplo sobre economia circular na cadeia de alimentos. A indústria brasileira de polpas e sucos gera, anualmente, um volume expressivo de resíduos de frutas nativas que hoje têm baixo ou nenhum aproveitamento comercial. Se os compostos bioativos identificados nesses subprodutos avançarem para aplicações industriais, seja em suplementos, cosméticos ou ingredientes funcionais, o Brasil teria diante de si uma oportunidade de transformar passivo ambiental em ativo econômico, algo que já ocorre em menor escala com o bagaço da uva na produção de extratos ricos em resveratrol na indústria vinícola europeia.
Por que essas frutas ainda são subaproveitadas
O paradoxo levantado pela pesquisa é evidente: o Brasil concentra uma biodiversidade frutífera sem paralelo no mundo, mas grande parte da população consome um repertório reduzido de frutas, majoritariamente de origem exótica ao território nacional. Segundo Maria Carolina Alfino, a globalização dos hábitos alimentares contribuiu para essa concentração de consumo em espécies como maçã, banana e laranja, enquanto frutas brasileiras com elevado valor nutricional permanecem pouco conhecidas por boa parte da população.
Esse cenário tem paralelo em outros países megadiversos. Estudos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) já apontaram que, das mais de 7 mil espécies de plantas comestíveis catalogadas no mundo, menos de 30 respondem pela maior parte da alimentação humana global, um fenômeno conhecido como erosão da diversidade alimentar. Frutas nativas brasileiras como o cambuci, quase desconhecido fora de São Paulo, e o marolo, típico do Cerrado, ilustram esse apagamento de patrimônio genético e nutricional que a ciência agora tenta reverter com dados concretos.
O caminho até a mesa do brasileiro
Apesar dos resultados favoráveis, a professora Elizabeth Torres é direta ao apontar a principal limitação da revisão: a maior parte das evidências analisadas vem de estudos realizados em modelos celulares ou animais. “Ensaios clínicos com seres humanos ainda são escassos”, afirma.
Essa ressalva não diminui a relevância dos achados, mas indica o próximo passo necessário para que o potencial identificado em laboratório se traduza em recomendações alimentares consolidadas. O caminho da ciência básica até a política pública de nutrição costuma ser longo, e passa necessariamente pela realização de ensaios clínicos robustos, capazes de confirmar em humanos o que já foi observado em células e animais.
Enquanto a ciência avança nessa direção, o valor imediato da pesquisa está em outro lugar: no reposicionamento simbólico de frutas que fazem parte da identidade brasileira, mas que raramente recebem o mesmo destaque nutricional dado a espécies importadas. Valorizar esse patrimônio botânico, tanto na pesquisa quanto na mesa, pode representar um dos caminhos mais acessíveis e sustentáveis para fortalecer a relação entre alimentação, biodiversidade e saúde pública no país.
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