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A floresta que fica de pé dentro do mar e guarda carbono como nenhuma outra no planeta

Os mangues armazenam até 10 vezes mais carbono por hectare que florestas tropicais convencionais, segundo pesquisas internacionais — e o Brasil abriga a maior área desse ecossistema em todo o mundo

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Mel Maria
11 de junho de 2026
in Eco, Clima & Sustentabilidade
A floresta que fica de pé dentro do mar e guarda carbono como nenhuma outra no planeta

Existe uma floresta que cresce com os pés na água salgada, resiste a marés, furacões e inundações, alimenta oceanos inteiros e ainda retira da atmosfera quantidades de carbono que nenhuma outra vegetação terrestre consegue igualar por hectare. Durante décadas, foi chamada de pântano, de terra inútil, de empecilho ao desenvolvimento costeiro. Era o mangue. E o equívoco sobre sua natureza custou ao planeta uma fração considerável de um dos sistemas de proteção climática mais eficientes que a evolução produziu.

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A reviravolta científica sobre o papel dos mangues começou a ganhar força nos anos 2000, quando pesquisadores passaram a medir não apenas o carbono que essas florestas absorvem pela fotossíntese, mas o que elas acumulam e trancam nos solos lamacentos sob suas raízes. O resultado mudou o entendimento sobre o que conta como reservatório de carbono no planeta.

O segredo está embaixo da lama

A fotossíntese dos mangues funciona de forma similar à de qualquer outra floresta: as folhas capturam CO₂ e liberam oxigênio. O que diferencia esses ecossistemas, porém, é o que acontece com a matéria orgânica que eles produzem ao longo do tempo. Em solos alagados e com baixo teor de oxigênio, a decomposição natural ocorre em velocidade muito menor do que em solos secos. Isso significa que folhas, raízes, galhos e toda a biomassa que cai sobre o sedimento costeiro vai se acumulando em camadas sobrepostas por séculos e até milênios, formando um estoque de carbono extremamente denso e estável.

Estudos publicados pelo Blue Carbon Initiative, programa conjunto da IUCN, da CIFOR e da IOC-UNESCO, estimam que os mangues armazenam entre 1.000 e 2.000 toneladas de carbono por hectare quando se considera toda a coluna de solo sob suas raízes, podendo chegar a taxas de sequestro anuais que superam em até 10 vezes as das florestas tropicais convencionais por unidade de área. Parte considerável desse carbono está nos sedimentos, protegida da decomposição enquanto o ecossistema permanece intacto.

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Esse fenômeno ganhou o nome de carbono azul, em referência aos ecossistemas costeiros e marinhos que funcionam como grandes cofres climáticos. Mangues, pradarias de algas marinhas e marismas compõem esse grupo, mas os mangues se destacam como os mais produtivos e os mais ameaçados entre os três.

O Brasil no centro do mapa global dos mangues

O território brasileiro abriga aproximadamente 1,37 milhão de hectares de mangue, o que representa cerca de 12% de toda a área desse ecossistema no planeta. Nenhum outro país concentra tanta área em território nacional. A distribuição se estende do litoral do Amapá, ao norte, até o sul de Santa Catarina, com as maiores concentrações nos estados do Pará, Maranhão e Bahia. Rios que desembocam no mar criam estuários onde água doce e salgada se misturam numa proporção que o mangue domina com precisão ecológica.

Essa abundância não é coincidência geográfica. O Brasil reúne as condições ideais para o desenvolvimento dos mangues: costa extensa em zona tropical e subtropical, grandes volumes de rios que depositam sedimentos no litoral e temperatura da água dentro da faixa que essas espécies exigem para se estabelecer e crescer. A combinação entre o Rio Amazonas, o São Francisco, o Tocantins e dezenas de rios menores garante o aporte de sedimentos que alimenta a formação contínua de novos manguezais ao longo do tempo.

Uma floresta que sustenta o mar

O papel dos mangues vai além do estoque de carbono. Suas raízes aéreas, que emergem da lama em estruturas características que parecem arcos ou joelhos, criam um labirinto tridimensional submerso que funciona como berçário para peixes, camarões, caranguejos e moluscos. Estima-se que mais de 70% das espécies marinhas comercialmente importantes passem ao menos uma fase do ciclo de vida nos manguezais, onde encontram abrigo contra predadores e abundância de alimento orgânico em decomposição.

A perda de mangues, portanto, não é apenas uma questão de biodiversidade costeira. É também uma questão de produtividade dos oceanos adjacentes. Estoques pesqueiros que abastecem comunidades litorâneas inteiras dependem da existência de manguezais funcionando como incubadoras naturais. A destruição de um hectare de mangue não afeta apenas aquele ponto da costa: ela ecoa por quilômetros ao redor.

Além disso, as raízes e a densa trama de troncos funcionam como barreira física contra a erosão costeira. Ondas que chegariam com força total à linha de praia perdem velocidade e energia ao atravessar o mangue, protegendo a costa de recuos que, sem essa proteção, avançariam a uma taxa muito maior. Em regiões onde ciclones ou ressacas intensas são frequentes, os manguezais representam a diferença entre a preservação e a destruição de linhas costeiras inteiras.

O preço da destruição

Apesar de toda a sua relevância ecológica e climática, os mangues estão entre os ecossistemas mais ameaçados do planeta. A Global Mangrove Alliance estima que o mundo perdeu entre 30% e 50% de sua cobertura original de manguezais ao longo do século XX, com a maior parte da destruição concentrada no período entre 1980 e 2000, quando a expansão da carcinicultura, o aterramento para construção urbana e o desmatamento para lenha eliminaram vastas extensões costeiras na Ásia, na África e na América Latina.

No Brasil, a situação é menos grave do que em países do Sudeste Asiático, mas está longe de ser tranquila. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) identificou perdas consistentes em trechos do litoral nordestino e do norte fluminense, onde a ocupação urbana desordenada e a aquicultura avançaram sobre áreas de manguezal nas últimas décadas. A legislação brasileira protege os manguezais como Áreas de Preservação Permanente desde o Código Florestal de 2012, mas a fiscalização irregular deixa lacunas que permitem degradação contínua em muitos pontos da costa.

O dado que a ciência mais repete ao tratar desse tema é o que talvez seja o mais importante: quando um manguezal é destruído, o carbono acumulado por séculos nos seus solos é liberado rapidamente para a atmosfera. O que levou milênios para ser estocado pode se transformar em emissões em questão de meses. Isso coloca os mangues numa posição singular no debate climático — são ativos que, se perdidos, se tornam passivos imediatos.

Um ecossistema que a ciência ainda está aprendendo a ler

A cada ano, novas pesquisas ampliam o entendimento sobre o funcionamento dos manguezais. Estudos recentes identificaram que algumas espécies de mangue possuem mecanismos de adaptação à elevação do nível do mar mais sofisticados do que se imaginava, sendo capazes de aumentar a taxa de acumulação de sedimentos em resposta ao avanço das águas, o que lhes permite, em condições adequadas, acompanhar a mudança sem recuar. Outros trabalhos documentaram que manguezais em bom estado de conservação conseguem se recuperar de perturbações como tempestades severas com uma velocidade surpreendente, desde que a estrutura do solo e o regime hídrico permaneçam intactos.

O que ainda está sendo dimensionado com precisão é o potencial dos manguezais como ferramenta ativa de política climática. Projetos de restauração de mangues começam a integrar mercados de carbono voluntários em diferentes países, com o Brasil sendo identificado internacionalmente como um dos territórios com maior potencial para esse tipo de iniciativa, dado o tamanho de sua costa e a extensão das áreas degradadas que poderiam ser recuperadas.

A floresta que cresceu dentro do mar, desprezada por tanto tempo, está se tornando um dos argumentos mais sólidos da ciência para mostrar que proteger a natureza e enfrentar a crise climática são, muitas vezes, exatamente a mesma coisa.

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