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Como a Embrapa reduziu o custo da tilápia no Tocantins com uma tabela alimentar inédita

Revisão: Derick Machado
6 de junho de 2026
in Agro do Futuro & Inovação
Como a Embrapa reduziu o custo da tilápia no Tocantins com uma tabela alimentar inédita

Por anos, piscicultores tocantinenses conduziram suas criações de tilápia seguindo tabelas alimentares desenvolvidas para outros estados. Parecia funcionar, ao menos na ausência de alternativa. Mas o que estava na prática sendo ignorado era simples: o Tocantins tem condições ambientais próprias, temperatura da água diferente, dinâmica de reservatórios específica, e parâmetros que não se encaixam perfeitamente no que foi formulado para Goiás ou qualquer outra região.

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Esse descompasso entre o protocolo adotado e a realidade local gerava desperdício silencioso. A ração, insumo que chega a representar 80% dos custos de produção na piscicultura, era fornecida em quantidades calibradas para outras águas. O resultado: gastos maiores do que o necessário, sem nenhum ganho equivalente no desempenho dos peixes.

Foi exatamente esse cenário que motivou a pesquisa conduzida pela Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas, resultando em um Comunicado Técnico disponibilizado gratuitamente e que promete mudar a forma como a tilápia-do-nilo é manejada no estado.

O que foi testado, e onde

Os experimentos foram conduzidos no reservatório de Lajeado, um dos principais espelhos d’água utilizados para a piscicultura de tanques-rede no Tocantins. Os pesquisadores partiram da tabela alimentar já conhecida e usada na região de Serra da Mesa, em Goiás, e testaram uma adaptação: uma redução semanal de 10% na taxa de alimentação.

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Dois grupos de peixes foram acompanhados ao longo do ciclo produtivo. Um seguiu o manejo convencional; o outro, o protocolo adaptado. Ao final, os animais que receberam menos ração chegaram a resultados equivalentes em crescimento, sobrevivência e rendimento de carcaça. Em 119 dias, os peixes evoluíram de 210 gramas para 936 gramas, com conversão alimentar média de 1,7 e taxa de sobrevivência de 97%.

“É uma tecnologia que valida, pela primeira vez para as condições do Tocantins, uma tabela de alimentação específica para a engorda da tilápia em tanques-rede. Até então, os produtores utilizavam tabelas desenvolvidas para outras regiões, como os reservatórios de Serra da Mesa e Cana Brava, em Goiás”, explica Ana Paula Oeda Rodrigues, pesquisadora da Embrapa Pesca e Aquicultura e líder do estudo.

O impacto direto no bolso do produtor

Traduzir ciência em números que fazem sentido na porteira é o que torna essa pesquisa concreta. Um quilo de tilápia produzido com o manejo convencional tem custo estimado em R$ 7,00. Com o novo protocolo, esse valor cai para R$ 6,51 — uma redução de aproximadamente 7% apenas no custo com alimentação. Para produções maiores, a diferença se multiplica de forma significativa ao longo de um ciclo produtivo completo.

A tabela validada traz recomendações semanais para peixes entre 190 gramas e acima de 1 quilo, com quatro refeições diárias, taxa de alimentação baseada na biomassa, ração com 32% de proteína bruta e granulometria de pellets variando entre 4 e 8 milímetros conforme o estágio de crescimento. O documento inclui ainda exemplos práticos de cálculo de ração diária, tornando a adoção acessível mesmo para produtores sem formação técnica aprofundada.

Boas práticas que completam a equação

Adotar a tabela, no entanto, é apenas parte da solução. A pesquisadora é firme em destacar que o manejo precisa ser conduzido com disciplina operacional para que os resultados apareçam de verdade.

“É fundamental também evitar sobras de ração nos tanques-rede, utilizar comedouros, fixar horários de alimentação, realizar biometrias periódicas para acompanhar o crescimento dos peixes e armazenar a ração em condições adequadas”, ressalta Ana Paula Oeda.

Cada um desses pontos tem impacto direto na eficiência alimentar. Sobras de ração, por exemplo, aumentam o desperdício e comprometem a qualidade da água, o que pode afetar a saúde dos peixes e exigir intervenções corretivas. Biometrias regulares garantem que a taxa de alimentação seja ajustada com precisão à biomassa real do lote, evitando tanto o subconsumo quanto o excesso.

Um estado com potencial represado

O Tocantins ainda colhe resultados modestos na piscicultura. Em 2024, a produção de tilápia ficou em torno de 700 toneladas — volume que reflete, em grande medida, a regulamentação recente da atividade na região. O potencial técnico, porém, é de outra ordem: estimativas apontam capacidade produtiva de até 290 mil toneladas anuais, número que evidencia o quanto ainda está por ser explorado.

Nesse contexto, a validação de uma tabela alimentar regionalizada chega como ferramenta estratégica. Reduzir custos, ajustar protocolos à realidade local e oferecer segurança técnica ao produtor são passos que pavimentam o caminho para uma cadeia mais competitiva. A pesquisadora reforça, contudo, que a tecnologia deve ser tratada como ponto de partida, não como solução universal: regiões com perfis ambientais distintos precisam validar e ajustar a tabela localmente antes de adotá-la em larga escala.

O lançamento oficial do Comunicado Técnico ocorreu durante a VII Reunião Técnica sobre Produção de Peixes em Tanques-Rede nos Reservatórios do Tocantins, na Agrotins, em Palmas. O documento está disponível gratuitamente nos canais da Embrapa Pesca e Aquicultura.

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