Existe uma pergunta que raramente aparece nas notícias sobre o agro brasileiro, mas que carrega implicações enormes para o setor: se um surto de febre aftosa eclodisse amanhã, o país teria vacinas disponíveis em escala, com rapidez suficiente para conter o avanço? A resposta, até recentemente, era incerta. A partir do trabalho do Instituto de Tecnologia do Paraná, o Tecpar, isso está mudando — e com uma meta concreta: 72 horas para disponibilizar vacinas em qualquer ponto do território nacional.
Esse é apenas um dos capítulos de um instituto que completa 86 anos em ritmo acelerado de expansão, com obras em andamento no interior do Paraná, projetos inéditos no país e um portfólio que cresce em direções que poucos associariam a um laboratório público estadual.
O banco que coloca o Brasil em outra posição no mapa da sanidade animal
A febre aftosa é uma das doenças que mais afetam a pecuária global, com potencial para devastar rebanhos inteiros e fechar mercados de exportação da carne bovina em questão de dias. O Brasil, que é o maior exportador mundial de carne bovina, construiu ao longo das últimas décadas um status sanitário invejável — e qualquer ameaça a esse equilíbrio tem consequências econômicas diretas e imediatas.
O Tecpar acaba de se tornar o responsável pelo primeiro banco brasileiro de antígenos e vacinas contra febre aftosa, um estoque estratégico que permite a formulação rápida de imunizantes em casos de surto. Com esse projeto, o instituto passa a deter os insumos necessários para abastecer o Ministério da Saúde em caráter emergencial em até 72 horas, em qualquer parte do país. A iniciativa é inédita no Brasil e posiciona o Paraná como elo central da segurança sanitária nacional do agro.
Também na saúde animal, o Tecpar concluirá ainda neste ano o novo Centro de Insumos para Diagnóstico Veterinário, que tornará o instituto um polo nacional de produção de antígenos para diagnóstico da brucelose bovina — outra doença que compromete tanto a produção leiteira quanto a carne e exige monitoramento constante dos rebanhos.
Vacinas humanas, um único fornecedor público e 28 milhões de doses
Além da frente veterinária, o Tecpar ampliou sua posição como laboratório público oficial no setor de imunização humana. Com dois projetos aprovados pelo Ministério da Saúde dentro do programa de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), o instituto se tornará o único laboratório público fornecedor de vacinas contra raiva humana e varicela para o Sistema Único de Saúde. Só no primeiro semestre deste ano, o Tecpar entregará 28 milhões de doses da vacina antirrábica veterinária para campanhas públicas de vacinação em todo o Brasil.
“Com um corpo técnico qualificado, fortes investimentos em infraestrutura e uma gestão que prioriza a eficiência, o Tecpar segue na vanguarda em inovação, impulsionando o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado e oferecendo soluções inovadoras para a indústria da saúde, setor produtivo e apoio técnico aos órgãos públicos”, afirma Eduardo Marafon, diretor-presidente do Tecpar.
Dois polos no interior e uma estratégia de descentralização
A expansão do Tecpar não acontece apenas no campo das ideias e dos projetos. Ela está se materializando em concreto e madeira engenheirada no interior do Paraná, com obras que representam uma mudança estrutural na forma como o instituto atua geograficamente.
Em Maringá, o Parque Tecnológico Industrial da Saúde avança com 70% de execução, em um terreno de 100 mil metros quadrados doado pela Prefeitura e com R$ 24 milhões de investimento do Governo do Estado. A vocação do parque é a produção de insumos estratégicos para o Ministério da Saúde, o que o coloca como infraestrutura de relevância nacional, não apenas regional. A conclusão desta etapa está prevista para o final de 2026.
Em Londrina, o Centro de Inovação Tecnológica nasce de uma parceria com a PUCPR, que cedeu um terreno de 1.500 metros quadrados dentro do seu câmpus. A obra usa tecnologia de madeira engenheirada e receberá investimentos da Secretaria da Inovação e Inteligência Artificial e da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná.
“Com a entrega destas unidades, o Tecpar amplia a atuação do Paraná na produção científica e tecnológica nacional, fortalecendo o ecossistema de inovação brasileiro. A intenção é que as unidades de Londrina e Maringá fortaleçam a indústria da saúde e se consolidem como espaços de referência em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, atraindo novos investimentos para a região”, acrescenta Marafon.
Blockchain para identificar cada veículo — e uma frota inteira por tokenizar
Paralelamente à agenda de saúde, o Tecpar lidera uma iniciativa que coloca o Paraná em território absolutamente inédito no Brasil. Desenvolvido em parceria com o Detran-PR e a empresa Vetrii, o Passaporte Veicular Digital usa tecnologia blockchain para criar uma identidade digital vinculada ao número de chassi de cada veículo. Ao longo de toda a vida útil do automóvel, todas as informações ficam registradas de forma segura, imutável e acessível.
O projeto-piloto foi concluído em março e agora avança para a fase de expansão. A meta para 2026 é tokenizar 1,5 milhão de veículos, com a tokenização acontecendo automaticamente em transferências de propriedade, mudanças de município e atualizações cadastrais, sem custo para o cidadão. O horizonte é inserir toda a frota paranaense no banco de dados nos próximos anos.
Telemedicina para quem está longe de tudo
Outro movimento relevante do Tecpar neste ciclo é a entrada no campo da saúde digital com o Conecta Saúde, uma plataforma de telemedicina voltada para municípios com pouca oferta de profissionais de saúde. O serviço oferece consultas em até dez minutos, atendimento médico virtual 24 horas por dia, sete dias por semana, e integração direta com o aplicativo Meu SUS Digital do Ministério da Saúde.
Para comunidades rurais e cidades pequenas do interior paranaense — exatamente o público que mais enfrenta dificuldades de acesso à atenção primária — essa solução representa uma mudança concreta na relação com o sistema de saúde público.
O impacto que os números confirmam
Um estudo do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) mediu o que o Tecpar representa de fato para a economia estadual. Em 2025, o instituto gerou um impacto de R$ 28,6 milhões no valor adicionado bruto do PIB do Paraná, contribuiu com R$ 1,83 milhão em arrecadação de impostos e criou 317 empregos diretos e indiretos, com R$ 11,7 milhões de impacto na massa salarial paranaense.
São números que colocam o Tecpar numa posição que vai além da pesquisa e da inovação: o instituto é um agente econômico ativo, cujos projetos geram retorno mensurável para o Estado. Aos 86 anos, essa equação parece mais sólida do que nunca.
