Existe um paradoxo curioso no saneamento básico brasileiro: ao mesmo tempo em que o país debate a falta de fertilizantes acessíveis para o campo, toneladas de material rico em nitrogênio, fósforo, cálcio e matéria orgânica são geradas diariamente nas estações de tratamento de esgoto e representam um dos maiores desafios logísticos e ambientais do setor. A Sanepar, companhia de saneamento do Paraná, encontrou uma saída concreta para esse impasse, e o mercado respondeu rapidamente: a primeira chamada do SaneBio, em março deste ano, esgotou as 1,2 mil toneladas disponíveis em poucas semanas.
Na terça-feira (16), a companhia abriu o segundo edital de credenciamento, desta vez com volume ainda maior e mais opções para quem quer participar. São 1,5 mil toneladas de biossólido fertilizante produzido a partir do tratamento de esgoto, disponíveis para produtores rurais e empresas de qualquer porte nas unidades de Campo Mourão, Cianorte, Nova Londrina e Umuarama.
O que é o SaneBio e por que ele importa para o solo
O biossólido não é simplesmente lodo de esgoto. O SaneBio passa por tratamento e higienização sob padrões técnicos e ambientais rigorosos antes de chegar à propriedade rural. O resultado final é um insumo rico em matéria orgânica e em nutrientes essenciais para o solo: nitrogênio, fósforo, cálcio, magnésio, enxofre e micronutrientes que normalmente demandam aplicação separada de fertilizantes convencionais.
Quando a higienização é feita com cal, o produto ainda atua na correção da acidez do solo, substituindo parcialmente os corretivos calcários. Cada lote sai acompanhado de um laudo analítico elaborado previamente pela Sanepar, e a aplicação segue projeto agronômico desenvolvido pela própria companhia, o que garante ao produtor um nível de rastreabilidade e segurança técnica pouco comum em insumos dessa faixa de preço.
“Através desse projeto de valoração do lodo de esgoto SaneBio, a Sanepar eleva sua eficiência, reduzindo custos e gerando receitas acessórias, ao mesmo tempo em que garante ao produtor rural o lodo para uso agrícola, a garantia do recebimento de um insumo agrícola de alta qualidade em sua propriedade, com preço competitivo e previsibilidade para o planejamento da próxima safra agrícola”, explica o engenheiro agrônomo Marco Aurelio Knopik, responsável pela orientação do projeto na região Noroeste do Paraná.
O que mudou na segunda chamada
Em relação ao primeiro edital, a segunda chamada traz duas novidades relevantes. A primeira é o aumento do volume total, que passou de 1,2 para 1,5 mil toneladas, refletindo tanto a demanda reprimida quanto a capacidade operacional ampliada nas quatro unidades participantes.
A segunda novidade é a inclusão do SaneBio Tipo B, voltado exclusivamente para o cultivo de cana-de-açúcar com finalidade sucroalcooleira, que se soma ao Tipo A, já disponível na primeira chamada e indicado para a maioria dos cultivos agrícolas, florestais e de fruticultura, conforme a legislação vigente. Ao todo, o edital oferece sete apresentações diferentes, que variam conforme o teor de sólidos e o tipo de tratamento, com valores de disponibilidade entre R$ 20 e R$ 100 por tonelada.
“Ao ampliar o atendimento ao setor sucroalcooleiro, abrimos caminho para novas e promissoras parcerias entre a Sanepar e os produtores rurais. O SaneBio consolida-se como uma solução altamente eficaz e ambientalmente segura para a destinação de resíduos, além de serem comprovados os índices de aumento de produtividade e competitividade para o agronegócio paranaense”, afirma Wilson Bley, diretor-presidente da Sanepar.
Como funciona o credenciamento
Para participar, o interessado preenche o formulário no site da Sanepar, anexa a análise de fertilidade do solo da área pretendida e informa a cultura e o tamanho da área de aplicação. A companhia analisa a documentação e, havendo habilitação, emite a fatura de reserva com prazo de pagamento de até dez dias corridos. As solicitações seguem ordem cronológica de inscrição, e o edital estabelece limites mínimos e máximos de reserva para garantir acesso a um número maior de participantes.
O transporte pode ser realizado por frota própria devidamente licenciada, por empresas terceirizadas com as licenças necessárias ou contratado diretamente da Sanepar. Para pequenos produtores, a modalidade gratuita por meio do programa de destinação agrícola do lodo segue ativa paralelamente ao credenciamento pago.
A escala do desafio que está por trás do programa
Para entender o tamanho do que o SaneBio representa, vale olhar para os números do problema que ele ajuda a resolver. Só em 2024, as 269 Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) da Sanepar geraram quase 300 mil toneladas de lodo úmido. O gerenciamento desse volume demandou investimento superior a R$ 60 milhões, tornando a destinação final do lodo um dos maiores custos operacionais da companhia e, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios ambientais do saneamento básico em escala global.
A valorização desse resíduo como insumo agrícola muda completamente a equação: o que era custo de gestão ambiental passa a gerar receita acessória para a companhia e a entregar ao produtor um fertilizante rastreável, tecnicamente assistido e com preço muito abaixo dos fertilizantes minerais convencionais. É economia circular funcionando na prática, dentro de um modelo que ainda é exceção no Brasil, mas que o Paraná está ajudando a demonstrar como viável e escalável.
