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O que uma flor de brejo tem a ver com a água que irriga sua lavoura

O lírio-do-brejo acumula metais pesados e degrada agrotóxicos por processos naturais das raízes pesquisadores da UFLA já testam o uso em campo no Sul de Minas

Revisão: Derick Machado
6 de junho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência
O que uma flor de brejo tem a ver com a água que irriga sua lavoura

Existe uma planta que cresce espontaneamente às margens de rios, córregos e áreas alagadas em boa parte do Brasil, produz flores brancas perfumadas e, silenciosamente, faz algo que poucos fertilizantes ou produtos químicos conseguem: limpa a água. O lírio-do-brejo, cujo nome científico é Hedychium coronarium, carrega nas raízes e nos tecidos uma capacidade de fitorremedição que pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA) estão explorando de forma sistemática em áreas de lavoura no Sul de Minas Gerais.

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A planta não é nova, tampouco desconhecida. Jardineiros a cultivam pela beleza das flores, e ambientalistas a reconhecem como espécie invasora em alguns biomas. O que a ciência está aprendendo agora é como redirecionar esse potencial para um problema concreto e crescente na agricultura brasileira: a contaminação de solos e mananciais por agrotóxicos e metais pesados.

Como a planta remove o que está na água

O processo pelo qual o lírio-do-brejo atua na descontaminação envolve dois mecanismos distintos, mas complementares. O primeiro é o acúmulo direto: a planta absorve metais pesados como chumbo, cádmio, zinco e cobre por meio do sistema radicular e os armazena nos próprios tecidos, retirando-os da coluna d’água e do solo. Esse mecanismo é chamado de fitoextração e funciona de maneira passiva, a planta simplesmente cresce e vai concentrando os contaminantes enquanto se desenvolve.

O segundo mecanismo é mais sofisticado. As raízes do Hedychium coronarium liberam enzimas que degradam compostos orgânicos persistentes, categoria que inclui muitos dos princípios ativos de herbicidas, fungicidas e inseticidas amplamente utilizados na agricultura. Esses compostos, ao entrarem em contato com a rizosfera, a zona de solo imediatamente ao redor das raízes, passam por reações bioquímicas que os quebram em moléculas menos tóxicas ou biologicamente inertes. O processo é chamado de rizodegradação e representa uma das fronteiras mais promissoras da fitorremediação aplicada.

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A combinação dos dois mecanismos numa única espécie é o que torna o lírio-do-brejo especialmente interessante para pesquisadores. Enquanto muitas plantas acumulam metais ou degradam orgânicos, poucas fazem ambos com a eficiência documentada nesta espécie.

O que os testes da UFLA mostraram

Os experimentos conduzidos pela equipe da UFLA em áreas de lavoura no Sul de Minas avançaram além do laboratório, testando o comportamento da planta em condições reais de campo. Nessas áreas, a presença de resíduos de defensivos agrícolas e metais provenientes tanto de insumos quanto de solos naturalmente enriquecidos representa um desafio crônico para a qualidade da água de irrigação e dos cursos hídricos locais.

Os resultados indicam que, em sistemas de fitorremediação estruturados, com a planta cultivada em faixas ao longo de corpos d’água ou em wetlands construídas próximas às lavouras, o lírio-do-brejo é capaz de reduzir significativamente as concentrações de determinados contaminantes ao longo do tempo. O ritmo de remoção varia conforme a carga inicial de contaminação, a temperatura, a disponibilidade hídrica e a densidade de plantio, mas os índices registrados em campo confirmam a viabilidade técnica da abordagem.

Um aspecto relevante dos testes é que a planta mostrou desempenho consistente mesmo em condições de alta carga de contaminantes, situação que inviabiliza muitas outras espécies utilizadas em fitorremediação por causa da toxicidade excessiva.

Os limites que a tecnologia ainda encontra

A fitorremediação com lírio-do-brejo não é uma solução universal, e entender seus limites é tão importante quanto conhecer seus resultados. O processo é inerentemente lento: dependendo da concentração de contaminantes e das condições locais, a recuperação de uma área pode levar meses ou anos para atingir padrões adequados. Para situações de contaminação aguda e urgente, outras tecnologias de remediação precisam ser consideradas em paralelo.

Há também a questão do destino da biomassa contaminada. Quando a planta acumula metais pesados nos tecidos, esses materiais precisam ser gerenciados com cuidado após o corte. Simplesmente depositar a biomassa no próprio campo pode devolver ao solo os contaminantes que foram removidos da água, anulando o esforço de remediação. O protocolo correto envolve coleta, secagem e destinação adequada, o que adiciona uma camada de gestão ao processo.

Outro limite está nos tipos de contaminantes. O lírio-do-brejo demonstrou eficiência em uma gama específica de metais e compostos orgânicos, mas não age com a mesma intensidade sobre todos os agrotóxicos. Moléculas muito estáveis quimicamente ou com baixa afinidade pela rizosfera apresentam taxas de degradação mais modestas, o que reforça a necessidade de diagnóstico prévio da área antes de qualquer implantação do sistema.

Por que isso importa para o produtor rural

A contaminação de mananciais e solos agrícolas por resíduos de defensivos e metais pesados é um problema que o setor enfrenta com pouca visibilidade pública, mas com consequências práticas bem concretas: restrições sanitárias, perda de produtividade em solos degradados, risco à saúde de trabalhadores rurais e, cada vez mais, exigências de rastreabilidade por parte de compradores internacionais que monitoram a conformidade ambiental das cadeias de fornecimento.

Nesse cenário, uma tecnologia de baixo custo, baseada em uma espécie de fácil cultivo e adaptada ao clima brasileiro representa uma oportunidade real de recuperação ambiental sem a necessidade de investimentos proibitivos em equipamentos ou produtos químicos de remediação. O lírio-do-brejo já cresce em muitas propriedades sem que o produtor perceba seu potencial — o que muda agora é que a ciência começa a oferecer o protocolo para aproveitá-lo de forma intencional e eficiente.

A pesquisa da UFLA é parte de um movimento mais amplo de valorização das chamadas soluções baseadas na natureza, que ganham espaço tanto nas políticas públicas de recursos hídricos quanto nas exigências de certificação ESG na cadeia do agro. O lírio-do-brejo, nesse contexto, deixa de ser apenas uma flor bonita à beira d’água e se torna um ativo ambiental com função produtiva mensurável.

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