A professora aposentada de Pinhais que conquistou o prêmio mais importante da ilustração botânica no mundo

Diana Carneiro recebeu em 2026 o Jill Smythies Award, concedido pela Linnean Society of London — a mesma instituição onde Darwin apresentou "A Origem das Espécies" — por um trabalho que une ciência, arte e a flora brasileira com precisão milimétrica

A professora aposentada de Pinhais que conquistou o prêmio mais importante da ilustração botânica no mundo

Foto: PMP

Num ateliê instalado dentro de uma casa no Centro de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, chegam envelopes vindos de laboratórios e herbários de diferentes países. Dentro deles, plantas prensadas e desidratadas, conhecidas como exsicatas, que a maioria das pessoas jamais viu e cujos nomes científicos poucos reconheceriam. Para Diana Carneiro, esses fragmentos ressecados são o ponto de partida para ilustrações botânicas que já circulam em publicações científicas de vários continentes. Em maio de 2026, esse trabalho de décadas recebeu o reconhecimento mais alto que um ilustrador botânico pode alcançar: o Jill Smythies Award, concedido pela Linnean Society of London.

A Linnean Society, fundada em 1788, é considerada a mais antiga sociedade científica dedicada à história natural ainda em funcionamento no mundo. É a mesma instituição onde, em julho de 1858, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace apresentaram conjuntamente os fundamentos da teoria da evolução por seleção natural, antes mesmo da publicação de “A Origem das Espécies”. Ter o nome associado a esse endereço, para qualquer profissional da ciência natural, significa entrar num seleto círculo de reconhecimento que atravessa séculos.

O prêmio que leva o nome de uma artista de Kew

O Jill Smythies Award foi criado em homenagem à ilustradora botânica britânica Jill Smythies (1927–2008), que dedicou boa parte de sua carreira ao Royal Botanic Gardens de Kew, em Londres, um dos centros de pesquisa em botânica mais importantes do planeta. O prêmio é concedido anualmente pela Linnean Society a ilustradores que tenham produzido trabalhos publicados de alta relevância científica, com foco especial na precisão morfológica e na contribuição à identificação e documentação de espécies. Diferentemente de premiações voltadas ao apelo estético, o Jill Smythies Award avalia, antes de tudo, o rigor científico da obra.

É justamente por isso que ele é comparado ao Oscar da área: ser reconhecido aqui significa que cientistas e especialistas de todo o mundo validaram a qualidade do seu trabalho como instrumento da ciência, e não apenas como expressão artística. Para o Brasil, que abriga a segunda maior flora do planeta em número de espécies, com cerca de 46 mil plantas catalogadas, ter uma ilustradora nacional entre os premiados tem um peso que vai além da trajetória individual.

Vinte e cinco anos ensinando antes de ilustrar

Diana Carneiro não chegou à ilustração botânica pelo caminho convencional. Durante 25 anos, ela atuou como professora de Ciências e Biologia na rede pública do Paraná, boa parte desse tempo no Colégio Estadual Arnaldo Busato, onde também ajudou a fundar um clube de ciências e artes nos anos 1980. A formação acadêmica já indicava a fronteira entre os dois mundos que ela habitaria depois: graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e bacharelado em Pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP).

Ao se aposentar da docência, a escolha não foi pelo descanso, mas pela dedicação integral a um campo que exige tanto do olhar científico quanto do domínio técnico das artes visuais. A decisão revelou, com o tempo, que os 25 anos em sala de aula haviam sido também uma escola de observação meticulosa, da mesma qualidade de atenção que a ilustração botânica exige de quem a pratica.

A arte que a fotografia não substituiu

Há uma pergunta recorrente sobre a ilustração botânica no século da fotografia de alta resolução e dos microscópios digitais: por que ainda desenhar à mão? A resposta está no que o ilustrador pode fazer e a câmera, sozinha, não consegue.

Uma fotografia registra o que está diante da lente num determinado ângulo, com determinada luz, naquele instante. Um ilustrador botânico treinado, ao contrário, pode combinar informações de múltiplas amostras, destacar estruturas diagnósticas que identificam a espécie, suprimir elementos que não têm relevância taxonômica e criar uma imagem que representa a planta de forma mais completa e útil para a ciência do que qualquer fotografia isolada conseguiria. Em espécies novas para a ciência, esse tipo de ilustração integra obrigatoriamente as publicações de descrição formal da espécie, e é a partir dela que outros pesquisadores do mundo inteiro passam a reconhecer aquele organismo.

É nesse território que Diana Carneiro trabalha. As técnicas que utiliza, bico de pena e aquarela, são as mesmas empregadas por ilustradores que documentaram a flora brasileira nos séculos XVIII e XIX, durante as grandes expedições naturalistas. A diferença é que hoje o ateliê de Pinhais recebe amostras digitalizadas e materiais enviados por pesquisadores de outros países, expandindo o alcance do trabalho muito além das fronteiras do Paraná.

A Mata Atlântica como matéria-prima

Grande parte das espécies retratadas por Diana vem da Mata Atlântica, um dos biomas com maior concentração de espécies endêmicas do planeta e, ao mesmo tempo, um dos mais ameaçados. Restam hoje menos de 12% da cobertura original do bioma, e a ciência corre contra o tempo para catalogar e descrever espécies que podem desaparecer antes mesmo de serem formalmente nomeadas. Nesse contexto, o trabalho de ilustradores botânicos com a precisão de Diana tem valor documental concreto: suas imagens ficam registradas em publicações científicas permanentes, garantindo que a morfologia daquelas plantas exista como referência mesmo que os espécimes originais um dia se percam.

As obras de Diana já ilustram livros e publicações científicas em vários países, produzidas a partir das exsicatas que chegam ao ateliê com vegetais prensados e desidratados. O processo de transformar um fragmento ressecado numa ilustração precisa exige horas de observação, consulta bibliográfica e execução técnica cuidadosa, com foco total na morfologia da planta, nas proporções corretas, nos detalhes das nervuras, pétalas, estames e frutos que permitem a identificação da espécie.

Formação de novos ilustradores e legado editorial

O reconhecimento internacional não esgota a contribuição de Diana ao campo. Paralelamente à produção artística, ela atua na formação de novos ilustradores por meio de cursos e da publicação do livro “Ilustração Botânica: Princípios e Métodos”, lançado pela Editora UFPR, que se tornou referência didática na área. Seu trabalho também aparece em materiais didáticos, livros infantis e guias de campo voltados à divulgação científica, ampliando o alcance da botânica para além dos laboratórios e das revistas especializadas.

Essa atuação coloca Diana numa posição rara: ela é simultaneamente produtora de ciência, artista reconhecida internacionalmente e educadora com décadas de experiência. O Jill Smythies Award 2026 não é apenas um prêmio por uma obra específica. É o reconhecimento de uma trajetória construída com consistência, rigor e a convicção de que a arte pode ser, ela mesma, um instrumento indispensável para a ciência entender e preservar o mundo vivo.

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  • Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.

    Mel contribui ativamente com artigos especializados para importantes plataformas do setor, começando pelo blog Maniadeplantas e hoje é uma autora de destaque na Agronamidia. Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.

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