Brasília ganha um pedaço de floresta no meio da cidade e ele foi plantado para ensinar ciência

O Cultiva Lab, do SESI Lab, transforma uma área urbana em laboratório vivo de agroecologia, reunindo quatro biomas brasileiros e abrindo trilhas educativas sobre biodiversidade e clima

Brasília ganha um pedaço de floresta no meio da cidade e ele foi plantado para ensinar ciência

Foto: Matheus Leocádio / SESI Lab

Entre o Museu Nacional e a Biblioteca Nacional, num dos eixos mais simbólicos da arquitetura de Brasília, uma área de 6,2 mil metros quadrados deixou de ser apenas paisagismo urbano para se tornar um experimento vivo de ciência ambiental. O SESI Lab inaugurou nesta segunda-feira o Cultiva Lab, um sistema agroecológico que reúne quase 90 espécies dos biomas Cerrado, Amazônia, Mata Atlântica e Caatinga num único espaço, com a proposta de aproximar o público da agricultura regenerativa, da biodiversidade e dos desafios climáticos do país.

O projeto nasce de uma parceria entre o SESI Lab, a Bayer e o TikTok, e chega num momento em que a integração entre educação ambiental e espaço público urbano ganha força como estratégia de conscientização em larga escala. Mais do que um jardim temático, o Cultiva Lab foi desenhado para funcionar como sala de aula a céu aberto, com trilhas pedagógicas e atividades mediadas voltadas a estudantes e visitantes do museu.

Quatro biomas, um só território de aprendizado

A escolha de reunir representantes de quatro biomas brasileiros num mesmo espaço urbano não é trivial do ponto de vista técnico. Cada bioma tem exigências distintas de solo, regime hídrico e luminosidade, o que torna o desenho do sistema um desafio de engenharia ecológica tanto quanto um projeto paisagístico. O Cerrado, com sua vegetação adaptada a solos ácidos e ciclos de fogo natural, convive na mesma área com espécies da Mata Atlântica, que demandam maior umidade e sombreamento, e com plantas da Caatinga, adaptadas à escassez hídrica extrema.

Essa diversidade é proposital. Ao colocar lado a lado biomas tão distintos, o projeto cria um recurso pedagógico que dificilmente seria replicável em sala de aula tradicional: o visitante pode observar, na prática, como diferentes ecossistemas brasileiros respondem a condições ambientais distintas, e como a biodiversidade nacional funciona como um mosaico de soluções evolutivas adaptadas a cada território.

“O Cultiva Lab reforça a vocação do SESI Lab como um espaço de aprendizagem viva, onde ciência, educação e sustentabilidade se encontram”, afirma Claudia Ramalho, superintendente de Cultura do SESI. “Ao transformar uma área urbana em um ambiente expositivo e de experimentação agroecológica, convidamos o público a refletir, na prática, sobre os desafios ambientais do nosso tempo e sobre as escolhas que impactam o futuro das cidades.”

Regeneração de solo como princípio estruturante

O conceito que sustenta o Cultiva Lab vai além da exposição de espécies nativas. O sistema foi concebido com base nos princípios da agroecologia e da agricultura regenerativa, com monitoramento ambiental contínuo da área e práticas voltadas à recuperação do solo e ao sequestro de carbono. Essa abordagem se conecta diretamente a um dos debates mais relevantes da ciência ambiental contemporânea: o papel do solo como reservatório de carbono e regulador climático.

Solos manejados sob princípios regenerativos têm potencial de armazenar quantidades significativas de carbono orgânico, função que se perde rapidamente em solos degradados ou submetidos a manejo convencional intensivo. Ao monitorar esse processo num espaço urbano e de fácil acesso ao público, o Cultiva Lab cria a oportunidade de tornar um conceito normalmente restrito a relatórios técnicos e pesquisas acadêmicas em algo visível e compreensível para quem visita o local.

O desenho técnico do projeto foi elaborado em parceria com o IPOEMA, Instituto de Permacultura, e passou por aprovação do IPHAN e dos órgãos responsáveis pelo planejamento urbanístico de Brasília, dado o caráter tombado da região onde o espaço está instalado. Essa camada de licenciamento reforça que o projeto não é apenas uma intervenção paisagística pontual, mas uma intervenção planejada para coexistir de forma permanente com o patrimônio arquitetônico da capital.

O setor privado e a aposta na regeneração como modelo de futuro

Para a Bayer, parceira técnica do projeto, a iniciativa se conecta a um movimento mais amplo de reposicionamento do setor agrícola em torno da regeneração ambiental como estratégia de longo prazo, e não apenas como compensação de impacto.

“Para o futuro da agricultura, nossa visão é produzir mais, restaurar a natureza e escalar a agricultura regenerativa”, afirma Demetrius Cruz, diretor de Assuntos Públicos e Sustentabilidade da Bayer. “Essa visão ganha vida com a parceria com o Cultiva Lab, que amplia o conhecimento da sociedade e demonstra a importância de unirmos inovação, tecnologia e sustentabilidade no campo.”

A presença de uma multinacional do setor agrícola num projeto de educação ambiental urbana ilustra uma tendência que vem ganhando corpo globalmente: empresas do agronegócio buscando construir credibilidade pública em torno de práticas regenerativas, num momento em que consumidores e investidores cobram cada vez mais transparência sobre o impacto ambiental das cadeias produtivas de alimentos.

Educação como eixo permanente, não apenas inauguração

O Cultiva Lab não foi projetado como uma instalação temporária. Sua função educacional será permanente, integrada às metodologias STEAM, que une Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática, e CTSA, voltada à relação entre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente. Na prática, isso significa que o espaço vai oferecer trilhas pedagógicas estruturadas e recursos expositivos para explicar processos como sucessão ecológica, funcionamento de sistemas agroflorestais e dinâmicas de regeneração ambiental.

Essa estrutura pedagógica é o que diferencia o Cultiva Lab de um simples jardim botânico expositivo. A proposta é que o visitante saia do espaço compreendendo não apenas quais espécies existem nos biomas brasileiros, mas como esses ecossistemas funcionam como sistemas interdependentes, e por que sua preservação tem relação direta com segurança alimentar e estabilidade climática.

A implantação ocorrerá de forma gradual. Após o plantio inicial das primeiras mudas, realizado durante o evento de lançamento com a participação de autoridades, estudantes e representantes das instituições parceiras, o sistema passará por etapas sucessivas de consolidação ecológica e diversificação biológica até atingir maturidade como espaço permanente de agroecologia urbana.

Educação digital e o alcance além do espaço físico

A participação do TikTok no projeto acrescenta uma camada que vai além da experiência presencial. A plataforma destacou que o apoio ao Cultiva Lab integra sua estratégia de promover educação ambiental e ampliar o acesso a informações confiáveis sobre o tema, um movimento que ganha relevância num cenário em que desinformação ambiental circula com facilidade nas redes sociais.

“Sabemos que os desafios ambientais são globais e acreditamos que cada organização deve fazer sua parte”, informou a empresa em nota. “O apoio ao SESI Lab, por meio do Cultiva Lab, é um exemplo concreto desse compromisso ao transformar um espaço urbano em uma experiência de aprendizagem sobre agroecologia, regeneração e biodiversidade.”

A iniciativa também integra a campanha global Ingrediente Principal, da plataforma, voltada à promoção da alimentação saudável e à disseminação de conhecimento sobre sistemas alimentares sustentáveis. A combinação entre um espaço físico de aprendizado e uma estratégia de comunicação digital amplia o potencial de alcance do projeto para além do público que efetivamente visita Brasília.

Um modelo replicável para outras capitais brasileiras

A relevância do Cultiva Lab ultrapassa os limites da capital federal. Iniciativas que integram agroecologia, educação científica e patrimônio urbano em áreas centrais de grandes cidades ainda são raras no Brasil, e o sucesso de um projeto dessa natureza num espaço tombado e de alta visibilidade pode funcionar como referência para outras capitais interessadas em transformar áreas urbanas subutilizadas em espaços de aprendizado vivo sobre biodiversidade.

O modelo dialoga diretamente com discussões internacionais sobre infraestrutura verde urbana e sua capacidade de gerar benefícios simultâneos: regulação climática local, educação ambiental, valorização de patrimônio histórico e fortalecimento do vínculo entre população urbana e os ecossistemas que sustentam a produção de alimentos no país. Em um momento de avanço das discussões sobre adaptação climática nas cidades brasileiras, projetos como o Cultiva Lab indicam um caminho possível: usar espaços públicos centrais não apenas como contemplação, mas como ferramenta ativa de educação científica acessível a qualquer cidadão.

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  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em jardinagem, botânica urbana e paisagismo residencial. Acompanha de perto as principais tendências de design biofílico, técnicas de cultivo sustentável e inovações no manejo de plantas para ambientes internos e externos, sempre com base em referências de institutos botânicos, universidades e especialistas do setor.

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