Fruto nativo com gordura boa como o azeite de oliva cresce no cerrado e está sumindo antes de virar produto

A castinha-do-cerrado tem composição lipídica documentada pela UFG, nunca foi domesticada e perde espaço para a soja no Brasil Central. A ciência conhece, o mercado ignora

Fruto nativo com gordura boa como o azeite de oliva cresce no cerrado e está sumindo antes de virar produto

Existe no Cerrado brasileiro uma planta de frutos pequenos, de casca resistente e polpa oleaginosa, cujo perfil de gordura se assemelha ao do azeite de oliva. Ela nunca esteve nas prateleiras de supermercado, nunca integrou um produto industrial, nunca foi objeto de política pública de fomento. Chama-se Cayaponia espelina, conhecida regionalmente como castinha-do-cerrado ou simplesmente cayapônia, e a ciência já documentou o suficiente para que sua ausência nas cadeias produtivas cause espanto.

Análises conduzidas no laboratório de química da Universidade Federal de Goiás (UFG) identificaram na castinha-do-cerrado uma composição lipídica com alto teor de ácidos graxos insaturados, os mesmos que conferem ao azeite de oliva seu apelo nutricional e econômico. O resultado coloca a espécie em uma categoria de plantas nativas com potencial agroindustrial real, não apenas folclórico. Mesmo assim, a Cayaponia espelina permanece fora de qualquer cadeia produtiva formal, sem cultivo sistemático, sem protocolo de manejo e sem mercado.

O que a ciência identificou

A semelhança com o azeite de oliva vai além de uma analogia superficial. O perfil de ácidos graxos da castinha-do-cerrado inclui concentrações relevantes de ácido oleico, o principal componente do azeite extravirgem e responsável por grande parte dos efeitos associados à dieta mediterrânea. Essa característica abre possibilidades concretas de aplicação nos setores alimentício, cosmético e farmacêutico, todos segmentos que já pagam caro por matérias-primas com esse tipo de perfil lipídico.

O problema é que identificar o potencial é apenas o primeiro passo de um processo longo. Entre a análise laboratorial e um produto nas prateleiras, há etapas que envolvem domesticação da espécie, desenvolvimento de protocolos agronômicos, estudo de viabilidade econômica da cadeia produtiva, atração de investimento e construção de mercado. No caso da castinha-do-cerrado, esse processo nunca foi iniciado, e o tempo disponível para começar está diminuindo.

O que a expansão agrícola está apagando

O Cerrado é o bioma brasileiro que mais perdeu cobertura vegetal nativa nas últimas três décadas. Responde hoje por cerca de 55% da produção nacional de soja e abriga as principais fronteiras agrícolas em expansão do país, em estados como Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Maranhão e Piauí. A pressão sobre o habitat é constante, progressiva e documentada em séries históricas de desmatamento que apontam perdas anuais superiores às registradas na Amazônia em vários períodos recentes.

A Cayaponia espelina é uma espécie de sub-bosque, típica das formações de cerrado sensu stricto e cerradão, exatamente os tipos de vegetação mais afetados pela conversão para áreas de cultivo e pastagem. Ela não aparece em listas de espécies ameaçadas de extinção porque sua situação ainda não atingiu os critérios formais de risco crítico, mas o habitat em que ocorre está sendo fragmentado de forma acelerada, e populações isoladas têm capacidade de reprodução e dispersão naturalmente limitada.

A situação da castinha-do-cerrado não é excepcional. Ela é representativa de um padrão amplo que atravessa a biodiversidade do Cerrado: espécies com propriedades documentadas, sem pressão de conservação formal suficiente e com perda de habitat em ritmo que antecede qualquer tentativa de aproveitamento econômico.

O limbo entre o laboratório e o mercado

O Cerrado concentra uma das maiores biodiversidades do planeta, com mais de 12 mil espécies de plantas catalogadas, das quais uma fração pequena tem uso econômico consolidado. Espécies como o pequi, o baru, o buriti e a cagaita já percorreram, em graus variados, o caminho entre o conhecimento tradicional e a cadeia produtiva. O pequi movimenta uma economia regional expressiva no interior do Brasil Central. O baru ganhou espaço em mercados de alimentação saudável nas últimas duas décadas. O buriti abastece indústrias de cosméticos com óleo de alto valor.

Ainda assim, essas são exceções em um universo de centenas de espécies que permanecem no que pode ser chamado de limbo botânico: documentadas pela ciência, conhecidas pelas comunidades locais, portadoras de propriedades com potencial de mercado, mas sem os mecanismos institucionais, financeiros e produtivos necessários para avançar. A castinha-do-cerrado está nesse grupo, ao lado de outras como o araticum, a mangaba em territórios ainda sem estrutura produtiva consolidada, e diversas palmeiras nativas cujos óleos nunca foram testados em escala industrial.

O gargalo não é científico. A ciência faz sua parte ao identificar e caracterizar o potencial. O gargalo está na ausência de pontes entre o conhecimento gerado nas universidades e a estrutura necessária para transformá-lo em produto, negócio e renda.

O custo de não aproveitar

Quando uma espécie vegetal nativa perde habitat antes de ser minimamente domesticada ou integrada a uma cadeia produtiva, o custo vai além do ambiental. Perde-se o acesso a material genético com características que, uma vez extintas ou isoladas, são irrecuperáveis. Perde-se a oportunidade de diversificar a base produtiva do agronegócio brasileiro com culturas nativas adaptadas às condições climáticas locais, reduzindo custos de manejo e vulnerabilidade a variações de temperatura e precipitação. E perde-se, sobretudo, a chance de construir cadeias de valor com identidade territorial genuína, algo que o mercado global de alimentos funcionais e cosméticos naturais valoriza cada vez mais.

O Brasil já passou por esse movimento com o açaí, que saiu da subsistência ribeirinha para se tornar um dos maiores fenômenos de exportação da agricultura nacional. Com o cacau nativo de variedades finas, cujo potencial foi reconhecido internacionalmente décadas depois de ser ignorado domesticamente. A castinha-do-cerrado e seus análogos botânicos estão na fila de espera de um processo que, quando finalmente começa, muitas vezes já encontra o habitat reduzido e as populações nativas fragmentadas além do ponto de viabilidade produtiva.

A diferença entre uma oportunidade perdida e uma cadeia produtiva bem-sucedida costuma ser, em casos como esse, uma questão de décadas de antecipação. E o relógio para a castinha-do-cerrado já está correndo há muito tempo.

Referências para consulta

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