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Jardinagem & Cuidados

O mecanismo por trás da samambaia que faz da planta um dos filtros de ar mais eficientes já testados

Pesquisas conduzidas pela NASA e por universidades britânicas mapearam como as frondes da samambaia absorvem poluentes voláteis presentes em ambientes internos

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Dentro de qualquer casa ou escritório fechado, o ar carrega uma mistura invisível de substâncias liberadas por móveis, tintas, colas, produtos de limpeza e até tecidos sintéticos. Formaldeído, xileno e tolueno estão entre os compostos orgânicos voláteis mais comuns nesses ambientes, e a exposição prolongada a eles está associada a irritação respiratória e desconforto ocular. É nesse cenário que a samambaia se destaca como uma das soluções biológicas mais estudadas para reduzir essa carga tóxica do ar.

O mecanismo por trás dessa capacidade não é mágico. Ele envolve estruturas específicas das frondes, que são as folhas compostas e recortadas características da planta, e um processo metabólico que converte substâncias nocivas em compostos que a própria samambaia consegue utilizar ou neutralizar.

Como a fronde absorve o que o ar carrega

As frondes da samambaia possuem uma superfície ampla e uma densidade elevada de estômatos, pequenas aberturas microscópicas espalhadas pela epiderme foliar responsáveis pelas trocas gasosas da planta. É por esses estômatos que o dióxido de carbono entra durante a fotossíntese e o oxigênio é liberado. O mesmo caminho é aproveitado para a entrada de poluentes voláteis presentes no ar ao redor.

Uma vez dentro do tecido foliar, esses compostos passam por um processo de metabolização. Enzimas presentes nas células da planta quebram moléculas como o formaldeído em substâncias mais simples, que são incorporadas ao metabolismo vegetal ou armazenadas de forma inofensiva nos vacúolos celulares. O xileno segue caminho semelhante, sendo parcialmente degradado e parcialmente translocado até as raízes.

Esse segundo destino é o que torna o processo ainda mais interessante. Estudos sobre fisiologia vegetal indicam que parte dos compostos absorvidos pelas folhas é transportada via seiva até a região radicular, onde microrganismos presentes no substrato completam a degradação. A samambaia, nesse sentido, não atua sozinha: ela opera em conjunto com a comunidade microbiana que vive ao redor de suas raízes, formando um sistema de filtragem que envolve folha, planta e solo simultaneamente.

O que a ciência já comprovou sobre a espécie

O estudo mais citado sobre o tema é o NASA Clean Air Study, conduzido em 1989 pelo pesquisador Bill Wolverton, que investigava formas de purificar o ar de estações espaciais fechadas. A samambaia-de-Boston, nome popular da espécie Nephrolepis exaltata, figurou entre as plantas mais eficazes identificadas na pesquisa, com destaque para sua capacidade de remoção de formaldeído e xileno em câmaras controladas.

Mais de três décadas depois, uma pesquisa conduzida pela Universidade de Birmingham, em 2022, testou plantas incluindo samambaias em uma sala com concentração de dióxido de nitrogênio (NO2) equivalente à de um escritório situado próximo a vias de tráfego intenso. Os resultados mostraram que as plantas testadas foram capazes de absorver cerca de metade do NO2 presente no ar ao longo de uma hora. A pesquisa também trouxe um dado prático relevante: em ambientes pequenos e pouco ventilados, um conjunto de cinco plantas conseguiu reduzir os níveis de NO2 em até 20%, enquanto em espaços maiores esse percentual caiu para 3,5%, o que reforça que a eficácia da purificação está diretamente ligada ao volume de ar do ambiente e à proporção de folhagem presente nele.

Um detalhe pouco discutido: a samambaia também filtra metais pesados

Um aspecto menos conhecido sobre a espécie é sua capacidade de remover não apenas compostos orgânicos voláteis, mas também metais pesados presentes no ar em concentrações baixas, como o mercúrio. Esse processo, conhecido como fitorremediação, ocorre porque as raízes e os tecidos foliares da samambaia conseguem absorver e reter partículas metálicas que se depositam sobre a planta ou que chegam até ela dissolvidas na água de irrigação. Embora o volume removido em ambientes domésticos seja pequeno se comparado ao uso da técnica em solos contaminados, o mecanismo é o mesmo empregado em projetos de recuperação ambiental de grande escala.

O que isso significa na prática dentro de casa?

A eficiência da samambaia como purificadora de ar depende de fatores que vão além da simples presença da planta em um cômodo. A ventilação natural do ambiente segue sendo o fator mais determinante para a qualidade do ar, e nenhuma planta substitui a renovação constante do ar em espaços fechados. O que a samambaia oferece é uma camada adicional de filtragem, mais relevante em ambientes pequenos, pouco ventilados e com fontes constantes de poluentes, como cozinhas próximas a áreas com verniz ou quartos com móveis novos que ainda liberam compostos de fabricação.

Manter as frondes livres de poeira é parte essencial desse processo. Uma camada de poeira acumulada sobre a folhagem reduz a área de contato com o ar e diminui a eficiência das trocas gasosas pelos estômatos, o que na prática reduz a capacidade purificadora da planta ao longo do tempo. A limpeza periódica das folhas com um pano levemente úmido preserva não só a estética da samambaia, mas também sua função biológica mais valiosa.

Vale um alerta importante para quem tem animais de estimação em casa. As frondes da samambaia contêm substâncias que são tóxicas para cães e gatos quando ingeridas, o que exige atenção redobrada no posicionamento da planta em residências com pets.

A samambaia, afinal, ocupa um lugar raro entre as plantas ornamentais: alia valor estético e função biológica comprovada, transformando-se em um elemento discreto, mas cientificamente validado, de melhoria da qualidade do ar dentro de casa.

  • Mania de Plantas é uma publicação digital brasileira inteiramente dedicada ao universo da jardinagem, paisagismo, botânica e sustentabilidade. Com uma equipe editorial apaixonada por natureza, o portal entrega conteúdos práticos, inspirações de decoração verde e guias acessíveis para quem deseja cultivar o bem-estar e trazer mais vida para o seu dia a dia, seja em grandes jardins ou em pequenos espaços urbanos.

  • Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.

    Mel contribui ativamente com artigos especializados para importantes plataformas do setor, começando pelo blog Maniadeplantas e hoje é uma autora de destaque na Agronamidia. Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.