Uma planta não fala, mas reage. Muda a cor das folhas, altera seu metabolismo, modifica a composição química de seus tecidos quando entra em contato com uma substância que não deveria estar ali. É exatamente essa capacidade de resposta que pesquisadores do Laboratório de Fisiologia de Plantas sob Estresse (Lafipe), da Universidade Federal do Paraná, transformaram em ferramenta científica desde 2018.
O laboratório nasceu de uma pergunta que parece simples, mas exige anos de pesquisa para ser respondida com profundidade: como as plantas reagem às pressões que as atividades humanas impõem ao ambiente? A partir dela, a equipe passou a investigar como espécies vegetais, algas e outros organismos fotossintetizantes respondem ao contato com antibióticos, herbicidas, resíduos industriais e até compostos derivados de pneus, um tipo de contaminante que só recentemente ganhou atenção da comunidade científica internacional.
Quando a planta vira sensor biológico
O princípio por trás da pesquisa do Lafipe é o que a ciência chama de biomonitoramento. Organismos vegetais e algas funcionam como sensores vivos, capazes de indicar a presença de contaminantes muito antes que métodos convencionais de análise química identifiquem o problema em escala ambiental. Uma alga que reduz sua taxa fotossintética, uma macrófita que altera a coloração de suas folhas ou uma planta que acumula determinado composto em seus tecidos está, na prática, sinalizando um desequilíbrio que pode não estar visível a olho nu na água ou no solo.
Essa capacidade de resposta é o que torna o trabalho do laboratório estratégico não apenas para a ciência básica, mas para a formulação de políticas públicas de saneamento e controle ambiental. Ao entender exatamente como cada organismo reage a cada tipo de contaminante, é possível antecipar riscos antes que eles se transformem em crises de saúde pública, seja pela contaminação de mananciais, seja pela disseminação de resistência bacteriana no ambiente.
“Em outras palavras, tentamos responder uma pergunta maior: como usar o conhecimento ecológico e fisiológico das plantas para prevenir problemas ambientais antes que eles se transformem em problemas de saúde pública”, explica o professor Marcelo Pedrosa Gomes, coordenador do Lafipe.
O conceito que une todas as pesquisas do laboratório
Por trás de cada projeto desenvolvido no Lafipe está o conceito de Saúde Única, ou One Health, uma abordagem que ganhou força global após a pandemia de covid-19 e que parte de uma premissa direta: saúde humana, saúde animal e saúde ambiental são dimensões interligadas, não compartimentos isolados. Um ecossistema contaminado não afeta apenas plantas e animais silvestres. Ele compromete, de forma indireta mas mensurável, a qualidade de vida das pessoas que dependem daquele território.
Essa lógica orienta as três frentes de atuação do laboratório: pesquisa científica, extensão universitária e inovação tecnológica. Na prática, isso significa que descobertas feitas em bancada não ficam restritas a artigos acadêmicos. Elas se transformam em tecnologias aplicáveis, em suporte técnico a órgãos públicos e em educação ambiental voltada a escolas e comunidades.
Uma tecnologia que já sai do papel
Entre as soluções desenvolvidas pelo laboratório está o Mara, sigla para Macrófitas Aquáticas para Remoção de Antimicrobianos. O sistema utiliza plantas aquáticas como filtro biológico para remover resíduos de antibióticos presentes na água, um problema crescente em regiões com forte pressão de esgoto doméstico e efluentes hospitalares. A tecnologia já passou por testes em parceria com a Sanepar, companhia de saneamento do Paraná, o que indica um caminho real de aplicação em escala.
O interesse por esse tipo de solução cresce à medida que a comunidade científica internacional reconhece a resistência antimicrobiana como uma das maiores ameaças à saúde global das próximas décadas. Sistemas como o Mara representam uma alternativa de baixo custo e impacto ambiental reduzido frente a tecnologias convencionais de tratamento, que costumam depender de processos químicos mais agressivos e onerosos.
Quando o glifosato se conecta à resistência bacteriana
Um dos estudos mais reveladores conduzidos no Lafipe investiga uma conexão que poucas pessoas associariam à primeira vista. Sob orientação do doutorado em Ecologia e Conservação, a pesquisadora Letícia Malinoski investiga como herbicidas amplamente utilizados na agricultura, como o glifosato, podem contribuir para o surgimento de bactérias resistentes a antibióticos no ambiente.
O mecanismo por trás dessa relação envolve pressão seletiva: ao alterar o equilíbrio microbiano do solo e da água, o herbicida pode favorecer a sobrevivência e proliferação de linhagens bacterianas mais resistentes, que posteriormente entram em contato com populações humanas por meio da água, do solo ou da cadeia alimentar.
“Se a natureza ao redor de uma população está doente, é muito provável que aquela população também esteja”, alerta a pesquisadora, resumindo em uma frase o núcleo do conceito de Saúde Única que orienta todo o laboratório.
Outra pesquisa em andamento, conduzida pela doutoranda em Botânica Letícia Espíndola, combina fungos e plantas em um sistema conjunto para o tratamento de águas residuárias. O projeto une pesquisa de bancada e extensão universitária por meio de ações de educação ambiental voltadas às comunidades atendidas. “O desejo é unir ciência e educação para transformar a realidade”, resume a pesquisadora.
Ciência que sai da universidade e chega à comunidade
O que distingue o Lafipe de muitos laboratórios de pesquisa é a intensidade das ações de extensão. O espaço recebe estudantes da educação básica para vivências científicas e estágios de curta duração, uma estratégia que aproxima jovens da universidade pública em um momento decisivo de formação de interesse pela ciência. Além disso, o laboratório presta suporte técnico direto a empresas, escolas e órgãos públicos, oferecendo análises e avaliações que normalmente exigiriam contratação de serviços privados especializados.
“Entendemos que ciência só faz sentido quando ela ultrapassa os muros da universidade e retorna para a sociedade em forma de soluções, formação de pessoas e melhoria da qualidade de vida”, ressalta o professor Marcelo.
O contexto que torna essa pesquisa ainda mais urgente
O trabalho do Lafipe ganha relevância adicional diante de um dado que vem preocupando cientistas ambientais em todo o mundo: os chamados poluentes emergentes, categoria que inclui fármacos, produtos de higiene pessoal, microplásticos e compostos derivados de pneus, são hoje detectados em praticamente todos os corpos d’água estudados globalmente, mesmo em regiões distantes de grandes centros urbanos. Diferente de poluentes tradicionais, muitos desses compostos não possuem legislação específica de controle no Brasil, o que torna pesquisas como as do Lafipe fundamentais para orientar futuras normativas.
O composto 6PPD-quinona, derivado da degradação de pneus em contato com o ozônio atmosférico, é um exemplo emblemático dessa nova fronteira de pesquisa. Identificado inicialmente por cientistas americanos como responsável pela morte em massa de salmões em rios urbanos, o composto já foi detectado em cursos d’água ao redor do mundo e representa exatamente o tipo de contaminante que o Lafipe investiga em suas linhas de pesquisa sobre organismos fotossintetizantes.
Formar cientistas para lidar com problemas que ainda não têm nome
Para os estudantes que passam pelo Lafipe, a experiência vai além do treinamento técnico em equipamentos e análises de dados. O laboratório funciona como um espaço de formação humana, no qual pesquisadores em início de carreira aprendem a traduzir ciência complexa em linguagem acessível, uma habilidade cada vez mais valorizada num cenário de desinformação ambiental crescente.
“O laboratório busca gerar soluções aplicáveis para problemas ambientais concretos, contribuir para políticas públicas e fortalecer a educação ambiental. Também há um papel importante de despertar vocações científicas em jovens, mostrando que a universidade pública é um espaço acessível, de transformação social e construção coletiva do conhecimento”, conclui o professor Marcelo.
A pesquisa desenvolvida no Lafipe caminha na direção de um problema que vai se impor com mais força nos próximos anos: entender como o ambiente reage à pressão humana antes que essa reação se converta em crise sanitária. Plantas e algas, nesse cenário, deixam de ser apenas parte da paisagem e passam a ocupar o papel de sentinelas silenciosas de um desequilíbrio que, mais cedo ou mais tarde, chega até as pessoas.




