Tremor no Rio, vibração em SP: a geologia por trás de dois eventos que parecem iguais mas não são

Enquanto Maricá registrou abalo originado na própria costa, São Paulo sentiu os reflexos de um terremoto no Chile — e a diferença explica muito sobre o solo brasileiro

Tremor no Rio, vibração em SP: a geologia por trás de dois eventos que parecem iguais mas não são

Em menos de uma semana, moradores do Sudeste brasileiro relataram sentir a terra tremer em dois estados diferentes. No Rio de Janeiro, um tremor de magnitude 3.3 foi registrado na costa de Maricá na última quinta-feira (21). Em São Paulo, na segunda-feira (25), pessoas que estavam em edifícios altos da zona Oeste descreveram vibrações que duraram alguns segundos — resultado de um terremoto de magnitude 6.9 ocorrido no norte do Chile. Dois eventos, uma mesma semana, origens completamente distintas.

Entender o que diferencia esses dois casos vai além da curiosidade científica. Revela como o solo brasileiro, frequentemente descrito como geologicamente estável, responde de maneiras surpreendentes a fenômenos que acontecem tanto no fundo do oceano quanto a milhares de quilômetros de distância.

O que aconteceu no Rio de Janeiro

O abalo registrado no litoral fluminense às 5h31 de quinta-feira teve epicentro próximo a Maricá e foi monitorado pela Rede Sismográfica Brasileira (RSBR). Por ter ocorrido no mar e com magnitude baixa, não gerou relatos de impacto entre a população nem representou risco estrutural para a região costeira.

O evento, porém, não é exatamente uma raridade. “A margem sudeste do Brasil é a principal zona sísmica offshore do país, onde pequenos terremotos são relativamente frequentes”, explica o sismólogo Dr. Gilberto Leite, do Observatório Nacional. A explicação está nas tensões tectônicas que atuam continuamente sobre a crosta terrestre nessa faixa costeira, acumulando e liberando energia de forma gradual e, na maioria das vezes, imperceptível para quem está em terra.

O que distingue esse tipo de evento é exatamente sua origem interna: a energia sísmica nasce ali, na própria margem oceânica brasileira, e se dissipa rapidamente sem percorrer grandes distâncias.

O que aconteceu em São Paulo

O caso paulistano funciona de forma inversa. Nenhum abalo foi gerado sob o solo da capital — o que os moradores sentiram foi o eco de um evento que aconteceu a mais de 3 mil quilômetros de distância, nos Andes chilenos. Um terremoto de magnitude 6.9, com energia suficiente para atravessar o continente, chegou a São Paulo na forma de ondas sísmicas que percorreram a crosta sul-americana até atingir a cidade.

A razão pela qual São Paulo amplificou essas ondas tem a ver com sua geologia particular: a cidade está assentada sobre uma bacia sedimentar. Esse tipo de formação geológica funciona como uma caixa de ressonância natural, ampliando as ondas que chegam de longe e tornando perceptíveis movimentos que, sobre rocha sólida, passariam completamente despercebidos.

“Apesar do desconforto relatado por moradores, é muito pouco provável que sismos distantes causem danos estruturais em São Paulo”, afirmam especialistas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. A vibração sentida nos andares mais altos dos edifícios é real, mas sua intensidade ao nível do solo não alcança limiares capazes de comprometer estruturas construídas dentro das normas técnicas vigentes.

Tremor ou terremoto: a diferença importa

Os dois termos são frequentemente usados como sinônimos no cotidiano, mas têm definições técnicas precisas. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), eventos de baixa intensidade como os recentemente registrados em Minas Gerais (magnitude 2.9) e no Rio de Janeiro (magnitude 3.3) se enquadram na categoria de tremores de terra ou abalos sísmicos. O termo terremoto é reservado para fenômenos de maior magnitude e extensão de ruptura, como o que ocorreu no Chile e gerou ondas sentidas em outro país.

Essa distinção não é apenas semântica. Ela orienta protocolos de resposta, define o nível de monitoramento necessário e determina se há ou não acionamento de alertas para a população e para setores de infraestrutura.

O Brasil e a estabilidade relativa da Placa Sul-Americana

O país ocupa o centro da Placa Sul-Americana, uma das regiões tectonicamente mais estáveis do planeta. Essa posição explica por que a grande maioria dos sismos registrados em território nacional é de baixa intensidade e não representa risco significativo para edificações ou populações. Ainda assim, a estabilidade não é absoluta: margens costeiras, bacias sedimentares e regiões próximas a antigas estruturas geológicas podem apresentar atividade sísmica localizada, como o litoral do Rio de Janeiro demonstrou na última semana.

Na engenharia civil, o conhecimento sísmico brasileiro orienta projetos de edifícios com redundância estrutural e capacidade de deformação controlada, pensados para suportar cargas dinâmicas mesmo em eventos pouco prováveis. É essa margem de segurança que transforma um prédio que balança em São Paulo numa experiência desconcertante para seus moradores, mas não num risco real para quem está dentro dele.

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