Recuperar uma área devastada não é simplesmente plantar árvores e aguardar. O solo degradado perdeu matéria orgânica, estrutura e os microorganismos que sustentam a vida vegetal. Sem uma intervenção técnica bem planejada, o terreno resiste ao verde por décadas. Foi diante desse desafio que a Sanepar iniciou, em 2014, uma série de experimentos em 25 hectares de sítios experimentais no entorno do Reservatório Piraquara II, na Região Metropolitana de Curitiba. O que surgiu dali não é apenas uma solução local: é um conjunto de técnicas com potencial de ser replicado em qualquer área de restauração ecológica no Brasil.
Os resultados acumulados em dez anos de pesquisa comprovaram a eficácia de estratégias que combinam conhecimento científico com observação de campo, e hoje servem de base para projetos em outros reservatórios da empresa, para publicações em periódicos científicos internacionais e para parcerias com universidades que estudam a restauração de ecossistemas tropicais.
Por que a vegetação do entorno de reservatórios é tão importante
A relação entre floresta e água é direta e comprovada. Quando a cobertura vegetal ao redor de um reservatório desaparece, o solo fica exposto à chuva, que carrega sedimentos para dentro da água. Esse processo, chamado de assoreamento, reduz a capacidade de armazenamento da barragem e compromete a qualidade da água captada.
“Sem vegetação, ocorre a erosão do solo e, consequentemente, o assoreamento da barragem, o que reduz sua vida útil, impacta a qualidade da água e a quantidade da reservação”, explica Maurício Bergamini Scheer, engenheiro florestal da área de Pesquisa da Sanepar.
Além do assoreamento, a ausência de cobertura vegetal favorece o enriquecimento do corpo hídrico com nutrientes em excesso, criando condições ideais para o crescimento acelerado de plantas aquáticas como algas. Esse fenômeno, conhecido como eutrofização, complica o tratamento da água e pode inviabilizar o abastecimento em períodos críticos. A restauração ecológica, portanto, não é apenas uma questão ambiental: é também uma questão de segurança hídrica.
O que a sucessão ecológica ensina sobre restauração
A lógica central dos experimentos da Sanepar no Piraquara II parte de um princípio da ecologia: a natureza tem seus próprios mecanismos de recuperação, mas em solos muito degradados ela precisa de ajuda para iniciar o processo. Esse processo gradual de recolonização vegetal se chama sucessão ecológica, e ele segue etapas bem definidas.
Uma área devastada começa a se transformar em capoeira, uma vegetação secundária inicial de arbustos e plantas pioneiras. Após dez a quinze anos, evolui para um capoeirão, estágio intermediário com maior diversidade de espécies. Com o tempo e as condições adequadas, esse capoeirão vai se consolidando em floresta secundária jovem, com estrutura cada vez mais próxima de um ecossistema maduro.
“Ao longo desse processo, espécies diferentes vão dominar o terreno, melhorar as condições locais e fixar o carbono atmosféfico, mitigando gases de efeito estufa”, afirma Scheer.
O papel dos experimentos foi identificar como acelerar esse processo sem distorcer sua lógica natural, e quais técnicas produzem os melhores resultados em diferentes graus de degradação.
Crescimento lento e rápido, lado a lado
Uma das estratégias mais eficazes comprovadas nos sítios experimentais foi o plantio intercalado de espécies com velocidades de crescimento distintas. No Piraquara II, foram plantadas linhas de bracatinga, espécie nativa do sul do Brasil com crescimento rápido, intercaladas com mudas de crescimento mais lento como araçá, cedro e araucária.
A lógica é elegante: a bracatinga cresce depressa, cria sombra e umidade no solo e deposita matéria orgânica com suas folhas, preparando o terreno para que as espécies mais lentas se desenvolvam com mais qualidade. Com o tempo, as espécies de crescimento lento assumem o protagonismo do dossel florestal, enquanto a bracatinga vai cedendo espaço conforme o ecossistema amadurece.
O resultado visível nos sítios do Piraquara II é a presença de cinco a dez espécies por metro quadrado, incluindo plântulas que chegaram naturalmente, transportadas por pássaros e pequenos mamíferos que colonizaram a área durante o processo de recuperação. Esse dado revela que, a partir de certo ponto, a natureza retoma o comando — e o trabalho humano foi apenas o empurrão inicial.
A descoberta com as plantas aquáticas
Entre os experimentos conduzidos nos sítios do Piraquara II, um dos mais inovadores envolveu o uso de biomassa de plantas aquáticas para enriquecer solos degradados. A ideia surgiu de um problema: o reservatório tinha infestação de macrófitas aquáticas, plantas que se reproduzem rapidamente em corpos hídricos com excesso de nutrientes. Em vez de apenas descartá-las, a equipe de pesquisa testou se essa biomassa poderia ser aproveitada para recuperar o solo em áreas degradadas ao redor do reservatório.
O experimento foi conduzido por Scheer em conjunto com Charles Carneiro, especialista em Inovação e Novos Negócios da Sanepar, e pela engenheira florestal Fabiane Vargas Reis. Após um ano de acompanhamento, os resultados confirmaram a hipótese: as áreas tratadas com biomassa de plantas aquáticas apresentaram maior crescimento de vegetação, cobertura mais densa do solo e maior riqueza e diversidade de espécies em comparação com as áreas sem tratamento.
A pesquisa foi publicada na Restoration Ecology, uma das mais importantes revistas científicas internacionais na área de restauração ecológica, e representa uma contribuição metodológica relevante para projetos de recuperação ambiental em regiões tropicais. Além de solucionar o problema do solo empobrecido, o método oferece uma destinação eficiente para as plantas aquáticas excedentes, fechando um ciclo que transforma um resíduo em insumo.
Monitoramento como parte da estratégia
A restauração ecológica bem-sucedida não termina com o plantio. O monitoramento contínuo é parte fundamental da metodologia desenvolvida nos sítios experimentais, com foco especial no controle de espécies exóticas e invasoras que, se não gerenciadas, comprometem todo o trabalho de recuperação.
Espécies como pinus, alfeneiro, pau-incenso, amoreira, ameixeira e uva-do-japão foram identificadas como ameaças frequentes nas áreas monitoradas. Elas crescem com velocidade, ocupam espaço e inibem o desenvolvimento das espécies nativas. O manejo integrado, que combina remoção dessas espécies com o plantio direcionado das nativas, foi um dos fatores que garantiu a qualidade dos resultados observados ao longo da pesquisa.
Do experimento à escala
O aprendizado acumulado no Piraquara II já produziu resultados concretos além dos sítios experimentais. As técnicas desenvolvidas serviram de base para a recuperação de áreas do Reservatório Miringuava, onde foram plantadas 250 mil mudas de árvores nativas, e continuam sendo estudadas em parceria com universidades que pesquisam restauração ecológica no Brasil.
As mudas utilizadas nos projetos são produzidas pela própria Sanepar e por parceiros como o Instituto Água e Terra (IAT), a ONG Sociedade Chauá e a Itaipu Binacional, o que demonstra que iniciativas desse porte dependem de redes colaborativas para alcançar escala real.
O que os experimentos do Piraquara II mostram, no fundo, é que restaurar um ecossistema exige tanto ciência quanto paciência. A natureza tem seu ritmo, e o papel humano é criar as condições para que ela retome o caminho que o desmatamento interrompeu.
