O lago que dobrou de capacidade, ganhou garças e ainda protege Curitiba das chuvas

Há dez anos no câmpus CIC do Tecpar, o reservatório "Espaço Futuro" é um exemplo silencioso de urbanismo sustentável às margens do Rio Barigui

O lago que dobrou de capacidade, ganhou garças e ainda protege Curitiba das chuvas

Foto: Hedeson Alves/Tecpar

No bairro Cidade Industrial de Curitiba, às margens de um dos rios mais importantes da capital paranaense, existe um lago que a maioria dos curitibanos desconhece. Ele não aparece nos cartões-postais da cidade, não tem fila de visitantes e não disputa atenção com os parques mais famosos da região.

Mesmo assim, toda vez que a chuva cai forte sobre o CIC, é ele que absorve o impacto, libera a água de forma gradual e evita que ruas alagadas interrompam a rotina de quem vive no entorno. O lago do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) completa dez anos de revitalização em 2026, e a passagem do tempo só confirmou o que seus idealizadores esperavam.

De problema ambiental a solução urbana

A história do lago é, antes de tudo, uma história de correção de rota. O reservatório existe desde que o Tecpar foi instalado na Cidade Industrial, ainda na década de 1980, mas chegou ao início dos anos 2010 em estado precário. O assoreamento avançava, uma ligação clandestina de esgoto comprometia a qualidade da água e o entorno havia perdido qualquer função ecológica relevante. O ambiente era impróprio para o ecossistema local e inútil como infraestrutura hídrica.

Em 2016, uma intervenção completa reverteu esse quadro. O esgoto foi canalizado para a rede adequada, o espaço foi preparado para represar água com eficiência e a capacidade de armazenamento foi duplicada. O lago ganhou nome, “Espaço Futuro”, e também uma nova identidade urbana: pista de caminhada, paisagismo e 50 mudas de árvores nativas, entre elas ipê-amarelo, ipê-roxo, araçá, guabiroba e jabuticaba.

Uma década depois, o que era infraestrutura de contenção tornou-se também habitat. O lago abriga hoje uma variedade expressiva de peixes, anfíbios, insetos, répteis e aves. Garças, socós, marrecas e biguás frequentam as margens com regularidade, um indicador silencioso de que a qualidade ambiental do entorno se recuperou de forma consistente.

O que o lago faz que os olhos não veem

Por trás da paisagem agradável, há um mecanismo técnico em operação permanente. O lago funciona como um reservatório de detenção: recebe o excedente das chuvas intensas, absorve as variações bruscas de volume e devolve a água ao sistema hídrico de forma gradual e controlada. Esse processo reduz a sobrecarga sobre o Rio Barigui em momentos críticos e protege as margens de processos erosivos que, sem controle, comprometeriam a mata ciliar e o equilíbrio ecológico do rio.

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“A criação do lago trouxe reflexos positivos nas margens do rio, como a redução dos picos de vazão causados pelo volume das águas das chuvas e pela diminuição de processos erosivos, que prejudicam a mata ciliar. São resultados que só favorecem os processos ecológicos no seu entorno”, explica a bióloga Leila Teresinha Maranho, doutora em Engenharia Florestal e pesquisadora da Divisão de Planejamento e Controle Estratégico do Tecpar.

O Rio Barigui, para quem não é de Curitiba, percorre cerca de 67 quilômetros desde sua nascente na Serra da Betara, em Almirante Tamandaré, atravessa 18 bairros da capital no sentido norte-sul e deságua no Rio Iguaçu, no bairro Caximba. Seu nome é de origem indígena e significa “rio do fruto espinhoso”, em referência às pinhas das araucárias. É um dos principais cursos d’água da Região Metropolitana e, justamente por isso, qualquer intervenção que contribua para o equilíbrio de sua bacia tem escala de impacto bem maior do que o perímetro de uma única instituição.

Cidade-esponja antes do conceito virar moda

O modelo que o Tecpar adotou em 2016 tem nome no urbanismo global: Solução Baseada na Natureza. São abordagens que protegem, restauram e manejam ecossistemas para enfrentar desafios sociais concretos, como as enchentes causadas pelas mudanças climáticas. Dentro dessa categoria se encaixam as chamadas cidades-esponja, conceito popularizado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, que propõe usar a própria natureza para absorver, reter e integrar a água da chuva no espaço urbano de forma controlada.

O que chama atenção no caso do lago do Tecpar é que tudo isso foi feito antes de o conceito se popularizar nos debates sobre urbanismo sustentável no Brasil. O reservatório já operava dessa forma quando cidades-esponja ainda eram tema restrito a conferências internacionais. Hoje, dez anos depois, o exemplo ganhou ainda mais relevância diante do aumento na frequência e na intensidade das chuvas urbanas observado em várias capitais brasileiras.

“Obras como essa também são uma forma de devolutiva ambiental para a população, gerando benefícios diretos para quem vive e circula na região. É uma iniciativa que une responsabilidade ambiental, planejamento urbano e cuidado com as pessoas”, afirma Eduardo Marafon, diretor-presidente do Tecpar, para quem a implantação do reservatório vai além de uma solução de infraestrutura e representa um compromisso do instituto com o desenvolvimento sustentável e com a qualidade de vida da comunidade do entorno.

Um modelo replicável no contexto urbano

O que torna o lago do Tecpar relevante como referência não é apenas o que ele faz, mas o que ele demonstra ser possível. Uma área institucional que antes gerava passivo ambiental foi convertida em ativo ecológico e urbano, com custo relativamente baixo e impacto mensurável ao longo do tempo. A biodiversidade que chegou por conta própria, as margens estabilizadas e a proteção contra alagamentos são consequências de uma decisão tomada há dez anos e mantida com consistência desde então.

Em um período em que cidades brasileiras buscam respostas para o aumento das enchentes urbanas, o “Espaço Futuro” do CIC oferece uma resposta concreta: a natureza, quando bem manejada, resolve o que o concreto não consegue.

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