Toda manhã, no interior do Maranhão, mulheres acordam antes do sol para colher e beneficiar o babaçu. O trabalho é passado de mãe para filha há gerações, num ritual que se repete também no Piauí, no Pará e no Tocantins, onde cerca de 62 mil pessoas vivem do extrativismo do fruto. Por décadas, porém, grande parte do que essas comunidades produziam acabava no lixo: o óleo extraído da amêndoa tinha mercado, mas a farinha do mesocarpo, subproduto direto do processo, era descartada sem aproveitamento.
Essa lógica está sendo revertida por uma startup brasileira que enxergou no resíduo uma oportunidade bilionária. A BIOINFOOD desenvolveu uma biotecnologia capaz de transformar essa farinha descartada em ingrediente proteico de alto valor, com aplicação direta na indústria de alimentos e potencial de gerar uma nova frente de renda para as comunidades da floresta. O mercado que a empresa mira vale US$ 88 bilhões globalmente e cresce a 14,3% ao ano.
De resíduo a ingrediente industrial
O processo criado pela startup parte de um insumo que antes não valia nada. A farinha do mesocarpo do babaçu, com teor proteico original de apenas 1,5%, passa por hidrólise enzimática e fermentação em biorreatores automatizados com cepas selecionadas de levedura. As leveduras convertem os açúcares da farinha em biomassa proteica, sem necessidade de novos cultivos ou qualquer expansão de área. O resultado eleva o teor proteico para cerca de 7%, multiplicando em mais de quatro vezes o valor nutricional do ingrediente, com textura fibrosa e sabor equilibrado adequados para uso industrial.
A tecnologia já foi validada em escala laboratorial. Um protótipo de hambúrguer plant-based foi produzido e avaliado, e um momento simbólico marcou a trajetória do projeto: a degustação do produto por Cornelia Rodrigues, a “Nelinha do Babaçu”, empreendedora maranhense e uma das vozes mais representativas das quebradeiras de coco no país.
“A tecnologia estimula o uso sustentável de espécies nativas, sem necessidade de desmatamento ou cultivo intensivo”, afirma Osmar Netto, PhD, co-fundador da BIOINFOOD e líder do projeto.
Ciência que começa na floresta
O projeto não nasceu isolado em um laboratório. A BIOINFOOD contou com o apoio da Rede Terra do Meio do Alto Xingu, no Pará, que forneceu amostras e recebeu a equipe em visitas às comunidades. A rede reúne 35 organizações de povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares, somando 9 milhões de hectares protegidos, o que coloca as comunidades no centro da cadeia desde o início, não como beneficiárias passivas de um processo externo, mas como parte estruturante da solução.
O potencial técnico da área disponível para coleta de babaçu é de 1,5 milhão de toneladas por ano. A produção atual mal alcança 4% desse total, o que revela a dimensão da subexploração histórica da cadeia. Para a BIOINFOOD, esse vácuo é a oportunidade: escalar a tecnologia sem desmatar um único hectare, apenas aproveitando o que já existe e é descartado.
O desenvolvimento aconteceu em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), com aporte de R$ 2,7 milhões do Fundo JBS pela Amazônia, que classificou o projeto como o maior já apoiado no eixo de pesquisa e desenvolvimento desde sua criação, em 2020.
“A Amazônia tem oportunidades que ainda não foram aproveitadas e o projeto é um belo exemplo disso: ciência aplicada, ingrediente nacional e impacto real para quem vive da floresta”, destaca Lucas de Oliveira Scarassia, Gerente Executivo de Projetos do Fundo JBS pela Amazônia.
O mercado que espera pelo babaçu
O timing do projeto coincide com uma janela favorável raramente vista no setor. O mercado brasileiro de proteínas alternativas movimentou R$ 1,13 bilhão em 2024, com crescimento de 14% sobre o ano anterior, e a projeção global aponta para expansão de 14,3% ao ano na próxima década. Ao mesmo tempo, a demanda europeia e americana por ingredientes de origem sustentável, rastreável e com impacto socioambiental positivo cria um canal de entrada real para produtos com o perfil que a BIOINFOOD entrega.
O contexto macroeconômico reforça o argumento. A bioeconomia amazônica, uma das grandes apostas estratégicas do Brasil, pode movimentar entre US$ 100 e US$ 140 bilhões por ano até 2032, segundo estudo divulgado antes da COP30. O babaçu, nesse cenário, deixa de ser um produto regional de subsistência e passa a ser um ativo estratégico com projeção internacional.
“O babaçu é um exemplo de como a parceria entre instituição pública de pesquisa e empresa inovadora pode encurtar o caminho entre o coproduto e o ingrediente industrial”, afirma Roseli Ferrari, Pesquisadora Científica e Diretora Técnica de Divisão do ITAL.
O próximo passo
A startup agora busca parceiros comerciais para a fase de escala piloto. A plataforma de fermentação desenvolvida para o babaçu tem aplicação direta em outros coprodutos agroindustriais, como farelo de trigo, milho e arroz, além de cascas de oleaginosas nativas como castanha-do-Brasil, macaúba e cupuaçu. A lógica se repete: transformar o que sobra da cadeia primária em insumo de alto valor para indústrias de maior complexidade.
O que começou nas mãos das quebradeiras de coco do Maranhão pode chegar às prateleiras de supermercados europeus como proteína plant-based com origem rastreável e impacto social comprovado. A Amazônia, nesse caso, não é apenas cenário. É a matéria-prima de uma cadeia que o Brasil ainda está aprendendo a valorizar.
