Em 2021, João Paulo Durante caminhava pela Trilha do Cabo Aéreo, em Lauro Müller, no Sul de Santa Catarina, quando um conjunto de flores vermelhas chamou sua atenção. Guia de turismo, observador de aves e fotógrafo da natureza, ele fez o que sempre faz diante de algo que o intriga: apontou a câmera e registrou. Naquele momento, não sabia que estava documentando uma espécie que a ciência ainda não conhecia — e que levaria seu próprio nome.
A planta batizada de Alstroemeria durantei foi oficialmente descrita em artigo publicado na revista científica Phytotaxa, conduzido pelos botânicos Júlia Gava Sandrini, Luís Adriano Funez e colaboradores. O estudo demonstrou que a espécie encontrada em Santa Catarina, Paraná e São Paulo era diferente da Alstroemeria cunha, com a qual vinha sendo confundida há décadas em coleções botânicas de todo o país.
Quando a curiosidade antecede a ciência
Durante não estava em campo com objetivos científicos naquela tarde de 2021. Além de observar aves, ele acompanha e registra com regularidade a flora catarinense, e as flores vermelhas daquela astromélia se destacaram o suficiente para merecer atenção. Os registros ficaram guardados até que, em 2023, ele decidiu compartilhar fotografias e anotações sobre a flora regional com o botânico Luís Adriano Funez, curador do Herbário Barbosa Rodrigues.
“Em 2023 selecionei algumas plantinhas para ele me ajudar com as identificações. Entre elas estava a alstroeméria, conhecida popularmente como astromélia, que ele achou diferente e interessante”, conta Durante.
A percepção de Funez não foi imediata nem superficial. O que o chamou atenção foi a combinação de características morfológicas que não se encaixavam perfeitamente no perfil da Alstroemeria cunha. A partir daí, o que era uma dúvida informal se transformou numa investigação científica sistemática.
O trabalho que transforma uma fotografia em espécie
Para comprovar que uma planta representa uma espécie inédita, não basta observação em campo. É necessário comparar, medir, testar e documentar com rigor suficiente para suportar o escrutínio da comunidade científica. A bióloga e doutoranda Júlia Gava Sandrini coordenou essa etapa do processo e descreve a extensão do trabalho realizado.
“Nós começamos uma série de investigações para verificar se aquela identificação realmente correspondia à planta que estávamos observando. Fizemos comparações entre exemplares de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro”, explica Júlia.
A equipe recorreu a herbários físicos e bases de dados de diversas regiões, onde a planta aparecia catalogada como Alstroemeria cunha. As análises morfométricas — medição detalhada das estruturas florais acompanhada de testes estatísticos — revelaram diferenças consistentes e repetíveis entre as duas espécies. A A. durantei possui tépalas mais estreitas e alongadas do que sua “prima” e uma coloração particular: enquanto a Alstroemeria cunha apresenta flores predominantemente vermelhas ou alaranjadas, a nova espécie exibe uma transição que vai do vermelho na base para o amarelo e o verde nas extremidades das pétalas, criando um degradê que funciona como assinatura visual.
O que os herbários guardam que as fotografias não mostram
Uma das ferramentas centrais para chegar à conclusão foi algo que a maioria das pessoas raramente considera: as coleções de herbários, onde exemplares secos e preservados de plantas coletadas ao longo de décadas e séculos aguardam silenciosamente por comparações futuras.
“Os herbários guardam exemplares coletados em diferentes épocas e locais. Eles permitem comparar plantas atuais com materiais históricos, alguns coletados há mais de cem anos”, explica Funez. Para o curador, sem essas coleções seria muito mais difícil comprovar que uma planta representa uma espécie diferente. “Fotografias são importantes, mas muitas vezes não registram todos os detalhes necessários para uma identificação precisa. O herbário fornece uma base sólida para esse trabalho minucioso”, afirma.
A ideia de que herbários são repositórios do passado subestima o papel que eles desempenham na botânica contemporânea. É exatamente porque a A. durantei estava presente nessas coleções — ainda que com identificação errada — que os pesquisadores conseguiram rastrear sua distribuição histórica e confirmar que a confusão com a Alstroemeria cunha se repetia sistematicamente em diferentes estados.
A homenagem mantida em segredo
A decisão de nomear a espécie em homenagem a João Paulo Durante foi mantida em segredo até o momento da publicação. Na noite de 26 de maio, Júlia Gava Sandrini enviou a ele o artigo publicado e uma foto da planta. Durante foi direto à seção onde o nome científico aparecia.
“Quando vi que eram os meus registros, fui procurar qual tinha sido o nome escolhido para a espécie. Quando li Alstroemeria durantei, meu coração acelerou e comecei a chorar de emoção”, relata.
Para ele, o reconhecimento vai além do gesto simbólico. “Representa a importância de fazer com dedicação aquilo que eu gosto e de compartilhar experiências que criam vínculos e amizades tão significativas”, diz. A homenagem também tem um peso coletivo: ao nomear a espécie após um observador da natureza, os pesquisadores sinalizaram explicitamente o valor que a ciência cidadã tem para a botânica brasileira.
“Nós observadores da natureza e cidadãos cientistas desempenhamos um papel muito importante em descobertas biológicas e na conservação ambiental. Somos uma imensa rede de olhos e ouvidos espalhados pelo campo”, afirma Durante.
Descoberta e ameaça no mesmo instante
A celebração científica, porém, convive com uma preocupação imediata. A Alstroemeria durantei já nasce para a ciência sob risco de extinção. Das nove populações conhecidas da espécie, apenas uma ocorre dentro de uma unidade de conservação. As demais estão em áreas privadas, pastagens ou margens de estradas, sujeitas a roçadas e outras intervenções humanas que comprometem seu ciclo de vida.
“Muitas vezes a planta é cortada porque as pessoas não sabem que se trata de uma espécie rara e ameaçada. Ela consegue rebrotar, mas essas intervenções afetam seu ciclo de vida e sua reprodução”, alerta Júlia Gava Sandrini. A pesquisadora destaca que ampliar áreas protegidas e investir em educação ambiental são medidas fundamentais para garantir a sobrevivência da espécie.
A situação não é incomum na botânica brasileira, mas não deixa de ser perturbadora: uma planta pode ser descrita pela ciência e entrar simultaneamente na lista de candidatas à extinção, antes mesmo que qualquer protocolo de proteção seja ativado. A janela entre a descoberta e o desaparecimento pode ser mais estreita do que se imagina.
Santa Catarina e os mistérios que ainda guarda
A descoberta reforça algo que os especialistas repetem com frequência, mas que o público em geral ainda subestima: mesmo em estados com histórico botânico bem documentado, a biodiversidade continua surpreendendo.
“Santa Catarina é um dos estados brasileiros com a flora mais bem conhecida, mas ainda encontramos espécies novas com frequência”, afirma Funez, apontando as áreas de campos de altitude da Serra Catarinense como ambientes especialmente promissores para futuras descobertas. “Há muitas espécies pequenas, raras e restritas a determinadas regiões que ainda precisam ser estudadas”, acrescenta.
Para João Paulo Durante, que começou tudo com uma câmera e a atenção que poucos dedicam ao que está ao redor, a Alstroemeria durantei é a confirmação de que o Brasil ainda carrega segredos botânicos à espera do próximo observador disposto a prestar atenção.
