Havia, guardado em armários e gavetas de uma instituição britânica fundada no século XVIII, um acervo sem paralelo no mundo: 6,4 milhões de amostras de plantas coletadas em todos os cantos do planeta ao longo de quatro séculos. Flores prensadas da Amazônia, sementes do deserto africano, fungos dos Alpes, espécimes de espécies já extintas. Um patrimônio imenso, científico e histórico ao mesmo tempo, que por décadas permaneceu acessível apenas a quem pudesse viajar até Londres e abrir pessoalmente aquelas gavetas.
Foi esse cenário que o biólogo brasileiro Alexandre Antonelli encontrou ao assumir, em 2019, a direção executiva de Ciência do Royal Botanic Gardens, Kew, mais conhecido como Kew Gardens. E foi exatamente essa barreira que ele se propôs a derrubar.
Uma missão de quatro anos e 1.500 colaboradores
O projeto de digitalização do acervo do Kew Gardens levou quatro anos para ser concluído, mobilizou cerca de 150 pessoas dentro da instituição e mais de 1.500 colaboradores em outros países, incluindo pesquisadores brasileiros. Em junho de 2025, Antonelli celebrou a digitalização da última exsicata, que é como os botânicos chamam as amostras de plantas prensadas, desidratadas e fixadas em cartolina para preservação em herbário. A ocasião foi marcada pela visita da ministra da Natureza do Reino Unido, Mary Creagh, ao Kew.
“Havia uma preocupação com o fato de que pesquisadores e conservacionistas ao redor do mundo não tinham facilidade para consultar espécimes de suas regiões de origem. Queríamos agilizar isso para evitar a perda de biodiversidade e aumentar os resultados científicos, como a descrição de espécies e a realização de estudos em evolução e ecologia”, explicou Antonelli em entrevista à Agência FAPESP, durante visita da delegação brasileira da FAPESP Week Londres ao Kew.
O acervo digitalizado vai muito além das exsicatas. Foram incluídos também cerca de 1 milhão de espécimes do fungário da instituição, além de materiais preservados em álcool, como flores e frutos que perdem a forma ao serem prensados. Tudo isso está agora acessível remotamente, como explica o próprio Antonelli: “Hoje, qualquer pesquisador no Brasil ou em qualquer lugar pode acessar nossas coleções virtualmente com a mesma facilidade de uma compra em um e-commerce.”
A inspiração veio do Brasil
O que poucos sabem é que o megaprojeto britânico teve raízes brasileiras. Antonelli revelou que o modelo seguido pelo Kew foi inspirado no Reflora, iniciativa lançada em 2010 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com apoio da FAPESP no Estado de São Paulo. O Reflora foi pioneiro ao resgatar, por meio de imagens em alta resolução, espécimes da flora brasileira depositados em herbários estrangeiros ao longo de séculos de exploração botânica europeia.
Esse processo tem um nome: repatriação digital. O conceito se insere num debate mais amplo sobre o legado colonial das grandes instituições naturais europeias, que acumularam, durante séculos, coleções de plantas, animais e minerais coletados em países do hemisfério Sul sob condições que hoje seriam inaceitáveis. O exemplo mais citado é o desvio de mudas de seringueira da Amazônia para o Sudeste Asiático no século XIX, que destruiu o monopólio brasileiro da borracha.
Antonelli reconhece esse histórico com clareza: existe um débito histórico. A exploração botânica foi uma ferramenta imperialista. Ao mesmo tempo, posiciona a digitalização como o caminho concreto para enfrentar esse passado: o objetivo não é necessariamente deslocar o objeto físico, mas democratizar o acesso ao conhecimento que ele carrega.
O que torna o Kew único no mundo
Com 6,4 milhões de exsicatas, o herbário do Kew não é o maior do mundo em número de amostras, mas carrega um diferencial que o coloca numa categoria própria: possui o maior número de espécimes-tipo do planeta, cerca de 300 mil. Espécimes-tipo são as amostras de referência usadas na descrição original de cada espécie, o padrão a partir do qual todos os demais exemplares são comparados e classificados. Ter 300 mil desses espécimes significa, na prática, guardar as “certidões de nascimento” de 300 mil espécies conhecidas pela ciência.
Além do herbário, o Kew mantém no sul da Inglaterra o Millennium Seed Bank, o maior banco de sementes silvestres do mundo: cerca de 2,5 bilhões de sementes de mais de 40 mil espécies. A distribuição estratégica de duplicatas entre diferentes instituições é uma das políticas centrais da instituição, justamente para evitar perdas catastróficas como as que ocorreram com os incêndios no Museu Nacional, em 2018, e no Instituto Butantan, em 2010.
O Brasil como parceiro central
A relação do Kew com o Brasil vai além da digitalização do Reflora. Antonelli identificou quatro frentes ativas de colaboração. A primeira é a expansão dos dados do Reflora, conectando registros botânicos a usos sustentáveis das plantas, como o medicinal, e integrando essas informações a bancos de dados internacionais. A segunda é a etnobotânica, com trabalhos junto a comunidades indígenas na Amazônia para documentar espécies utilizadas por elas e repatriar o conhecimento sobre objetos derivados de plantas que fazem parte dos 100 mil artefatos vegetais guardados pelo Kew, cujas técnicas de produção foram, em muitos casos, perdidas ao longo do tempo.
A terceira frente é a conservação e restauração. O Kew atua na Mata Atlântica em parceria com pesquisadores como Pedro Brancalion, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo, e Bernardo Strassburg, do Instituto Internacional para Sustentabilidade, usando sensoriamento remoto e inteligência artificial para priorizar áreas de restauração. Antonelli lidera pessoalmente um projeto-piloto de corredor ecológico no Rio de Janeiro, ainda em fase experimental, desenvolvendo metodologias em 500 hectares com perspectiva de ampliação de escala. A quarta frente é a exploração da diversidade de fungos brasileiros, suas moléculas e propriedades, com potencial direto para fortalecer a bioeconomia do país.
Uma fundação pessoal na Mata Atlântica
Paralelamente ao Kew, Antonelli mantém uma fundação sem fins lucrativos criada por ele mesmo, com sede em Macaé de Cima, no Rio de Janeiro. A Fundação Antonelli para a Pesquisa e Conservação da Biodiversidade coordena a iniciativa ARAÇÁ (Atlantic Forest Research And Conservation Alliance) e opera uma estação de pesquisa aberta a pesquisadores e estudantes, com foco em monitoramento ecológico, estudos de campo e descrição de novas espécies da Mata Atlântica.
É uma trajetória pouco comum no meio científico: um brasileiro que saiu do país, chegou ao posto mais alto de uma das instituições naturais mais influentes do mundo e voltou parte de sua atenção, e de seus recursos pessoais, para a biodiversidade que ficou para trás. Para Antonelli, a conservação da natureza tem uma vantagem comunicativa que o debate climático raramente consegue explorar: ela permite resultados visíveis e rápidos na escala do indivíduo. Cultivar plantas que atraem polinizadores no próprio quintal, por exemplo, já é uma contribuição concreta. O mundo digital abriu o herbário. O desafio agora é convencer mais pessoas de que vale a pena cuidar do que ele guarda.
Entrevista concedida por Alexandre Antonelli à Agência FAPESP durante a FAPESP Week Londres.
